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Cicatrizes

novembro 10, 2021

O filme “Milagre Azul”, disponível na Netflix, sem muito spoiler, trata da história verídica de um orfanato no México, à beira de ter que entregar o imóvel onde está estabelecido. Como única tábua de salvação precisa vencer um torneio de pesca marinha. Uma destas histórias que parecem, mesmo, roteiro de filme e que vale muito a pena ser conhecida.

Em determinado ponto do filme alguns garotos, que estavam no barco, em uma roda de conversa animada, começam a exibir cicatrizes nos seus corpos, à guisa de competição, como que a verem entre si, quem tinha superado o maior sofrimento físico. O capitão olhava a cena estupefato em perceber por quanta coisa já haviam passado aquelas crianças. A cena, no mesmo instante, me suscitou a questão: como nós olhamos para as nossas cicatrizes?

Sim, porque aquelas crianças olhavam com alegria, celebrando o sofrimento superado, felizes por não mais passarem por aquele tipo de abuso, seja dentro de casa ou vivido nas ruas, eram, afinal de contas vitoriosas. Achei um exemplo incrível.

Nós todos temos as nossas cicatrizes, afinal já vivemos muito mais do que aqueles meninos. Temos as físicas, frutos das intercorrências ou sofrimentos vividos e que marcam o nosso corpo. Mas temos também as psicológicas, aquelas existentes por conta de histórias passadas e que podem ter origens das mais diversas, como o fim de um relacionamento, uma briga em família, problemas financeiros ou materiais, decepções, relacionamentos abusivos, a morte de um ente amado. Cito apenas algumas razões possíveis e até muito comuns, mas a questão que fica é a mesma lá do início, como nós, adultos, olhamos para as nossas cicatrizes? Olhamos com a mesma alegria dos meninos que as exibiam como troféus de uma vitória conquistada? Ou olhamos com tristeza, saudade, dor, melancolia?

Vivemos em um mundo de provas e expiações, logo dores e sofrimentos em geral, na necessidade muito individual de cada experiência de vida, fazem parte do nosso roteiro e tem como finalidade nos servirem como aprendizado e, se a lição for aprendida, damos o próximo passo. Tão importante, para nós, como sofrer a prova ou expiação é a forma como passamos por ela.

Se nós olharmos para as nossas cicatrizes, físicas e psicológicas, com lamentação, dor, blasfêmia será que passamos bem por elas? Ou melhor, será que já passamos por elas ou a dor passada, em vez de cicatriz se transformou em âncora que nos deixou presos no passado? Será que demos o passo seguinte?

Entendo, e aprendi assim, que tudo o que nós passamos tem o seu propósito e o seu lugar na nossa vida. O propósito é o tal ensinamento que aquela experiência nos trará e o lugar é a sua localização temporal, o que significa dizer, ela tem prazo, dia para início e fim. A experiência terá sido bem sucedida se percebermos o ensinamento que ela trazia e se deixarmos ela lá no lugar dela, o passado. Esticar a dor e o sofrimento causado aos dias atuais é responsabilidade nossa e, ao fazermos isso, não haverá cicatriz, só uma âncora que nos fará reviver aquele momento incontáveis vezes em nossa vida, e o que era para ser apenas uma experiência, que traria um ensinamento importante, se transforma num sofrimento sem fim. E as consequências disso podem ser terríveis, traumas, depressões, um certo travamento em outras tantas questões ou relacionamentos, muitas vezes, até o suicídio.

Que nós todos aprendamos com aqueles meninos que nos ensinam que cada momento sofrido, marcado na pele ou na alma, já é parte do passado, é história e que eram vencedores por encararem, com alegria, a etapa vencida.

André Tarifa

Nota do Editor:

Imagem ilustrativa e em destaque disponível em <https://www.mensagemespirita.com.br/aquifazsepagaexp-cont-terra>. Acesso em: 09NOV2021.

André Luis R. Tarifa
André Luis R. Tarifa

Trabalhador espírita desde os 12 anos de idade, eterno aprendiz, tenho um canal no Youtube onde compartilho meu aprendizado e as belezas da poesia. Atualmente desenvolvo os meus trabalhos no Centro Espírita Mansão da Esperança em São Paulo, SP.

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