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Abandono e Aconchego

novembro 18, 2022

Ainda sinto no braço a triste sensação do vazio, da procura inútil!
Não vos deixarei órfãos…”
– Jesus.  (Jo., 14:8.)

Quando líamos as obras que relatam a preciosa vida de Chico Xavier, um dos (muitos) episódios que nos sensibilizou sobremaneira foi quando ele começou a perceber, ainda aos cinco anos de idade, a solidão e o abandono a que seria relegado, pela amostra grátis que lhe dava sua indiferente, perigosa, glacial e psicopata madrinha… 

Conta ele: “(…) na volta do cemitério, onde acabava de assistir ao enterro de minha mãezinha, vi a diferença entre ela e a senhora com quem eu devia viver. Quando eu andava ao lado de minha mãe, ela encurtava o passo, para acompanhar os meus, e me dava a mão. Tive que apressar as minhas pernas de cinco anos, para estar ao lado da outra, e fiquei feito bobo, balançando a mão, à procura dos dedos da “madrinha”. Ainda hoje sinto, no braço, a triste sensação do vazio, da procura inútil”. 

No dia 22 de maio de 1969, aos 59 anos de idade, o notável médium mineiro escreveu uma emocionante carta para seus diletos amigos: o casal Nena e Galves, na qual assim se expressou (1): “a princípio, a solidão se me afigurou uma condição difícil de ser transposta, mas com a passagem dos dias como que a misericórdia de Jesus se compadeceu de mim e mandou que os horizontes do meu coração se ampliassem… Comecei a perceber que a solidão não existia. A noite, que era para mim o tempo mais difícil de ser atravessado, povoou-se de vozes, de um momento para outro… Já não eram somente as palavras dos amigos espirituais que me induziam à fortaleza e ao reconforto… Deles começou a chegar para mim um novo hálito de energia e reconheci que a solidão fora um túnel para que eu lhes encontrasse mais vivamente a influência e o sorriso… Então venho compreendendo que realmente essas crianças sequiosas de afeto que nos procuram são igualmente nossos filhos da alma e que esses companheiros da humanidade que nos buscam, em nossas tarefas espirituais, tantas vezes algemados a cruzes de necessidade e de pranto, são também nossos familiares queridos… Agora, quando estou presente em nossa sopa fraterna, um laço mais profundo me reúne a cada criança que abraço… A vida vai adquirindo para mim um novo e mais belo sentido… Uma força que eu não sei explicar vai me renovando por dentro e observo que a presença do Senhor nunca nos deixa a sós. 

Isso tudo que venho sentindo principiou numa noite dessas, quando me vi fora do corpo… Comecei a andar pelo quintal em espírito e, não sei por que meios, as vozes vinham da natureza e, sem palavras articuladas, as cousas, aparentemente desprovidas de inteligência, me falavam à alma… O chão que eu pisava parecia dizer-me que ele também tinha vida e amava o Criador que o fizera e que, conquanto as criaturas o calcassem aos pés, ele se sentia feliz por servi-las, dando-lhes esperança… Mal não terminara e as roseiras nossas conhecidas como que me anotavam os problemas e me faziam sentir que elas também amavam as rosas que Deus lhe colocara nos braços vivos e ansiosos, e que sentiam imensa falta das flores que a Sabedoria Divina Ihes criara na seiva, mas que se sentiam consoladas por saberem que os rebentos de uma vida eram apanhados e levados para longe pelas mãos dos homens para derramarem perfume e alegria em louvor das criaturas de Deus… Depois como que as pedras na base do lar me induziam a compreender que elas igualmente amam o Criador que as materializou em auxílio do homem e as congregou em admirável união, em serviço nas fundações terrestres, dando-me a perceber que, embora, muitas vezes, ignoradas, sentem a felicidade de ajudar na sustentação das edificações humanas… Em seguida, à noite – a própria noite- tinha também uma confortadora mensagem e como que me falava, sem verbo audível, para que eu a recebesse sem medo, porque ela me oferecia um regaço materno à meditação e me ensinava a descobrir que a sombra era tão-somente um caminho para que vejamos no espaço infinito as legiões de estrelas, à maneira de falanges do amor celestial que Deus concede à Terra para que a Terra não se sinta sozinha na imensidão … Minha emotividade se fez tão forte que os laços da vida física me reclamaram ao corpo e, em meio de lágrimas de reconhecimento, compreendi que a solidão desaparecera… Então, em prece, consegui pensar: Oh! Meu Deus, meu Deus! Sê louvado, Pai de amor, pelo amor infinito com que Te fazes presente em toda parte!”                     

Rogério Coelho

Referência:
(1) HARLEY, Jhon, O Voo da garça. Belo Horizonte. Ed. Vinha de Luz: 2010, p. 278-281.

Nota do editor:
Imagem ilustrativa e em destaque cedida gentilmente pelo autor.

Rogério Coelho
Rogério Coelho

Rogério Coelho nasceu na cidade de Manhuaçu, Zona da Mata do Estado de Minas Gerais onde reside atualmente. Filho de Custódio de Souza Coelho e Angelina Coelho. Formado em Jornalismo pela Faculdade de Minas da cidade de Muriaé – MG, é funcionário aposentado do Banco do Brasil. Converteu-se ao Espiritismo em outubro de 1978, marcando, desde então, sua presença em vários periódicos espíritas. Já realizou seminários e conferências em várias cidades brasileiras. Participou do Congresso Espírita Mundial em Portugal com a tese: “III Milênio, Finalmente a Fronteira”, e no II Congresso Espírita Espanhol em Madrid, com o trabalho: “Materialistas e Incrédulos, como Abordá-los?” Participou da fundação de várias casas Espíritas na Zona da Mata Mineira.

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