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Resgate do afastamento

fevereiro 7, 2023

Nos idos do final da década de 1990, este que vos escreve estava em um grande anfiteatro para uma palestra espírita muito requisitada. Casa cheia, gente em pé, todos aguardando o início. Estava no segundo semestre de um ano eleitoral e, aproveitando-se daquela concentração de pessoas, um senhor bem-vestido discretamente ia abordando as pessoas, distribuindo seu “santinho”, ou seja, fazendo campanha eleitoral.

Ao ser cientificada desse fato, a organização do evento, por meio de um representante, abeirou-se do microfone e informou que a pessoa entregando os “santinhos” não tinha relação nenhuma com o evento e, ao terminar essa fala, foi efusivamente aplaudida pelo público presente, ao tempo em que o candidato saiu de fininho, envergonhado e cabisbaixo. Jovem, enchi-me de orgulho ao ver aquele evento.

E nestes quase trinta anos vi outros eventos memoráveis nos quais o movimento espírita soube demarcar seu espaço em relação ao poder governamental, vendo casas espíritas recusando subvenções estatais para seus trabalhos assistenciais, ou ainda federativas recusando a indicação, a pedido da secretaria de educação, de professores para o ensino religioso de Espiritismo nas escolas.

Percebia um ethos consensual de que como movimento, como organização de caráter religioso, tínhamos relações com o poder público como qualquer agremiação, mas não poderíamos ter relações que nos tornassem reféns do jogo político, estranho ao nosso metier, ou que ferissem a laicidade do Estado, um dos pilares da democracia. Isso era muito bem entendido por todos, pelo menos essa era a minha percepção. Percepção é subjetividade.

E assim passamos por eleições e eventos relevantes na vida pública nacional, e não foram poucos da década de 1990 para cá, sem que isso afetasse as nossas pautas, nossos eventos. Cada um tinha lá sua opção partidária, alguns até militavam. De vez em quando, na cidade pequena, alguém da casa espírita virava secretário de Saúde, mas não porque era da casa espírita, mas por conta de suas relações e da sua vida profissional e partidária.

Nossos atritos eram por questões de interpretações doutrinárias e nossos temas tinham importância na conduta cotidiana à luz da doutrina espírita e não porque ele estava relacionado a um diploma legal ou a um programa de governo. Seríamos omissos, ou respeitávamos as diversas esferas da existência e os papéis sociais de cada indivíduo?

Entretanto, com a chegada da internet e das redes sociais, além de outros fatores ainda não totalmente identificados, esses papéis antes estanques começaram a ser percebidos de forma combinada e a persona no trabalho começou a ser comparada publicamente com a persona da esfera política e com a persona da esfera familiar. Acabou a hipocrisia, diriam alguns. Pode ser? O fato é que, ao cabo, as esferas da vida cotidiana se misturaram e nossos naipes de preferências, em especial as políticas, passaram a ser objeto de conhecimento e julgamento.

Ao mesmo tempo, fortaleceu-se a ideia de que precisaríamos de candidatos para nos representar, talvez para contrapor a presença de parlamentares de outras denominações de forma crescente, talvez por conta da própria popularização do Espiritismo, não na formalidade do censo do IBGE, mas como crença das pessoas em geral.

Um caldeirão de circunstâncias que causa uma certa impressão atual de que, passados quase trinta anos, talvez o distribuidor de “santinhos”, a depender da cor do “santinho”, atualmente não ia ser advertido pela organização do evento e, se fosse, ela não seria aplaudida. Uma impressão calçada em algumas observações, que nos conduzem a reflexões inadiáveis no ponto em que nos encontramos dessa questão.

Talvez, não seria a hora de resgatar esse afastamento do mundo de César? Necessitamos mesmo, em nossas atividades, de candidatos que em suas plataformas ostentem a adjetivação espírita? Carecemos de recursos públicos em nossas atividades, mesmo as assistenciais? Devemos permitir que a tribuna ou o evento espírita sirva de propaganda eleitoral? Devemos estabelecer limites formais éticos para nossos dirigentes que decidam assumir carreiras políticas? São questionamentos sobre situações hipotéticas e exageradas, mas que são plausíveis.

Um pacote de indagações que tem respostas não só no plano filosófico, mas também no plano concreto, pois não é que o jogo político seja mau, mas ele tem regras próprias de sobrevivência, financiamento e competição. Ao nos vincularmos mais fortemente a esse jogo, ficamos ao sabor de certos ventos, e podemos olhar para o lado, para outras denominações, para ver um pouco dos benefícios, mas também os possíveis prejuízos dessa vinculação.

Saímos de nossa residência e vamos à casa espírita estudar, trabalhar a nossa espiritualidade, realizar ações de promoção social, encontrar nossos amigos. Para que ali seja somente isso, e não um espaço para angariar poder terreno, para mobilizar grupos com fins eleitorais, para debates sobre candidatos e suas propostas, coisas para quais temos espaços próprios para isso, talvez devamos realmente fazer esta reflexão sobre os limites em relação às atividades políticas, como movimento, casas e indivíduos.

Não se trata de ser apolítico ou de se omitir da discussão de temas relevantes para a vida social. A doutrina, desde 1857, sempre discutiu questões importantes da sociedade à luz de seus pressupostos. Não sei é se precisamos que os espaços da sociedade para discutir os seus problemas, os partidos políticos, invadam nossos espaços, interessados em obter a nossa filiação. Não fazemos isso com eles, indo lá colher prosélitos para o Espiritismo.

Um tema árido, mas toda essa mudança percebida nesta temática enseja realmente o debate maduro e a reflexão, e esse texto, como tantos outros, é uma tentativa de contribuir com essas questões. Se esse for o caminho, que se saiba o que se está fazendo, o porquê e os possíveis riscos advindos. E que se estabeleçam parâmetros consensuados para certas relações. Não podemos é achar que tudo é bom e bater palmas, de forma diferente do evento da década de 1990.

Marcus Vinícius de Azevedo Braga

Nota do Editor:
Imagem em destaque disponível em <https://cafecomkardec.com.br/home/espiritismo-e-politica/> . Acesso em 06FEV2023.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga
Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Residindo atualmente na cidade do Rio de Janeiro, espírita desde 1990, atua no movimento espírita na evangelização infantil, sendo também expositor. É colaborador assíduo do jornal Correio Espírita (RJ) e da revista eletrônica O Consolador (Paraná). É autor do livro Alegria de Servir (2001), publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB) e do Livro "Você sabe quem viu Jesus nascer" (2013), editado pela Editora Virtual O Consolador.

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