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As incompreensões religiosas na época de Kardec

outubro 31, 2023

O Codificador viveu no Século XIX – época grandes luzes que provocou grandes descobertas e teorias que modificaram o modo de vida do homem sobre a Terra, sua própria concepção e o papel que ele representa no planeta e no universo.

Simultaneamente foi um período de muitas polêmicas e choques na vida política e religiosa da França. Após a Revolução Francesa, no período do Terror, Robespierre impõe a religião racionalista e preside a cerimônia de introdução de uma bailarina na Catedral de Notre Dame, para caracterizar o estabelecimento do culto da razão. Poucos anos depois o cônsul Napoleão Bonaparte estabelece uma nova relação com a Igreja Católica, tida como oficial até a Revolução, e assina com o Papa Pio VII a Concordata de 1801, acordo que visava a restauração da Igreja Católica na França pós-revolução. O Catolicismo seria “a religião da grande maioria dos franceses”, porém não mais a religião oficial, em respeito ao Protestantismo que se expandia.

O papa Pio IX, contemporâneo do trabalho do Codificador, condenou diversas proposições que contrariavam a visão católica na época; condenava as ideologias do panteísmo, naturalismo, racionalismo, indiferentismo, socialismo, comunismo, franco-maçonaria, judaísmo, Igrejas que se apresentavam como cristãs e se propunham a explicar a Bíblia e várias outras formas de liberalismo religioso consideradas incompatíveis com a religião católica. Era tipicamente um conservador.

No seio da própria igreja católica da França surgem inquietações, ou, numa outra ótica, esforços importantes por parte de religiosos como: Félicité Robert de Lamennais, liberal que advogava a separação do Estado da Igreja, a liberdade de consciência, educação e imprensa. Jean-Baptiste-Henri Lacordaire, vigário da Catedral de Notre Dame, que escrevia claramente sobre “o mundo dos corpos e o mundo dos espíritos” e defendia que a “união da liberdade e do Cristianismo seria a única possibilidade de salvação do futuro”. Ambos foram punidos pelo Vaticano.

Várias polêmicas se disseminavam no seio da igreja católica. Motivado por discordâncias sobre o dogma da imaculada Conceição e sobre celibatarismo, o padre Jean-Louis Verger assassinou o arcebispo de Paris Marie Auguste Dominique Sibour, em janeiro de 1857.

Aos 9 de outubro de 1861, aconteceu o famoso “auto de fé”, em Barcelona, quando foram queimados em praça pública centenas de obras de autoria de Allan Kardec.

Esse foi o contexto vivido por Allan Kardec por ocasião da redação das Obras Básicas do Espiritismo.

Em 1863 surgiu o livro Sermões sobre o Espiritismo pregados na catedral de Metz refutados por um espírita de Metz (*), que é histórico e assinala bem algumas polêmicas que ocorriam por ocasião do trabalho do Codificador Allan Kardec. O padre R.P. Letierce, em seus sermões na cidade de Metz, combatia o Espiritismo. As principais questões levantadas pelo pároco de Metz eram: relacionar Espiritismo como causa de loucura; o Espiritismo como maldade; a tibieza dos espíritas; a “influência dos espíritos do inferno”; a não aceitação do dogma da eternidade das penas; ser uma heresia… E surgiu o livro “espírita de Metz” que elaborou argumentação firme e coerente com a Doutrina Espírita para refutar o padre Letierce.  Esse tem grande valor histórico e, acima de tudo, registra a coragem de um homem que não temia as pressões e perseguições religiosas e demonstrava profunda fidelidade ao nascente Espiritismo.

O livro Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo lançado por Kardec em 1864, logo foi incluída no Index librorum prohibitorum, a lista de publicações proibidas pela Igreja Católica. Este título foi alterado na segunda edição para O Evangelho segundo o Espiritismo.

Por outro lado, do seio do próprio catolicismo francês, já surgiam manifestações significativas, de contemporâneos de Kardec. O abade Marauzeau, em carta dirigida a Allan Kardec: “Mostrai ao homem que ele é imortal. Nada vos pode melhor secundar nessa nobre tarefa do que a comprovação dos Espíritos de além-túmulo e suas manifestações. Só com isso vireis em auxílio da religião, empenhando ao seu lado os combates de Deus”. O abade Leçanu, em seu livro História de Satanás anotou: “Observando-se as máximas de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, faz-se o bastante para se tomar santo na Terra”.

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Nota do autor:
(*) Síntese do Prefácio do articulista no livro citado, cuja tradução foi publicada em 2017, de forma digital por Autores Espíritas Clássicos, disponível na página eletrônica (copie e cole): https://autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Spirite%20de%20Metz/Serm%C3%B5es%20sobre%20o%20Espiritismo%20-%20Refutados%20por%20um%20Esp%C3%ADrita%20de%20Metz.pdf

Nota do Editor:
Imagem ilustrativa e em destaque disponível em evangelho.
Acesso em: 20/10/2023.

Antonio Cesar Perri de Carvalho
Antonio Cesar Perri de Carvalho

Ex-presidente da Federação Espírita Brasileira (interino de 5/2012 a 3/2013 e efetivo de 3/2013 a 3/2015); membro da Comissão Executiva e Primeiro Secretário do Conselho Espírita Internacional; Membro do Grupo de Estudos Espíritas Chico Xavier.

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