
A culpa é dos pais
Carla e Afonso se conheceram ainda na faculdade. Foi amor à primeira vista. Formaram-se e casaram poucos anos depois, constituindo uma família de referência.
Juntos dividiam o tempo entre as tarefas do lar, os compromissos profissionais e o tempo para eles mesmos.
De uma relação equilibrada que vibrava amor e paz, nasceu a primeira flor da família, a Dorinha. Cabelos cacheados e de olhos reluzentes, encantando a todos pela doçura e por representar bem aquela união conjugal exitosa.
– “Que família linda e perfeita!” – dizia uns.
– “Dorinha puxou aos pais. Que amor de menina. Delicada, prestativa e amorosa” – destacavam outros.
Ao completar sete anos, Dorinha começou a insistir com os pais que queria um irmãozinho. Sentia-se só nas brincadeiras, deprimia-se com facilidade, mas sempre sem perder a carisma que lhe era peculiar.
Sensibilizados com a situação da primogênita, Carla e Afonso resolveram mudar os planos familiares e não tardaram para trazer ao seio do lar o caçula Lucas.
Da mesma forma que Dorinha, Lucas nasceu em um ambiente onde o amor, a educação e a paz saltavam aos olhos.
Estava tudo perfeito mais uma vez. A família crescia em meio a corações unidos e a alegria reinante.
Todavia, diferente de Dorinha, Lucas apresentava desde a tenra fase infantil comportamentos menos esperados. Muitas vezes demostrava um egoísmo e uma agressividade além da normalidade.
Ambos foram crescendo e conquistando os seus passos, sempre amparados, acolhidos e incentivados pelo amor dos pais.
Mas enquanto Dorinha brilhava na faculdade e junto às atividades da família; Lucas seguia por um rumo bem diferente, envolvendo-se em circunstâncias de falta de disciplina na escola e sempre procurando se manter afastado e anônimo em relação aos pais.
Ano após ano, as situações desagradáveis geradas por Lucas se intensificaram e acabaram desgastando a imagem dos pais.
– “Vocês não deram atenção a esta criança.” – diziam alguns Psicólogos.
– “Vocês só têm olhos para a Dorinha.” – diziam os avós.
– “O sucesso de Dorinha é demais para Lucas. Vocês precisam mudar isso.” – dizia a escola.
Encurralados socialmente, a família desabou da alegria para a tristeza em alguns anos.
– “O que fizemos de errado?” – perguntava Carla.
– “Não faço ideia, querida.” – respondia Afonso, procurando confortá-la. – “Mas procuremos nos tranquilizar. Desde o nascimento de Lucas, conhecendo as dificuldades dele, colocamo-lo no foco da família. E, mesmo assim, não tivemos sucesso.”
– “Tenho a certeza de que não lhe faltou amor, acolhimento, educação, cuidados e Deus no coração. O que mais fazer?” – completou o esposo.
Enquanto isso, todos diziam lá fora:
– “A culpa é dos pais!”
* * *
Nossos filhos não nascem conosco.
São espíritos seculares que atendem a um planejamento reencarnatório que tem por propósito divino permitir que eles progridam em suas condições morais e intelectuais.
Alguns avançam mais rápido na senda do progresso. Outros se deixam levar pelos apelos carnais, envolvendo-se nas teias dos vícios, do orgulho, do egoísmo e contraindo débitos com os irmãos de caminhada ao longo das encarnações. [1]
Dentre estes que relutam em abandonar as más inclinações, há aqueles endurecidos que levam muito tempo para manifestar o arrependimento de suas falhas [2]. Assim, passam por diversas encarnações repetindo os mesmos erros, a par dos esforços de Espíritos protetores que se ocupam com o progresso do irmão menos favorecido.
Muitas vezes este apoio vem na figura de familiares e amigos, os quais, ainda no planejamento reencarnatório, cientes das dificuldades do espírito, assumem a missão da paternidade com o intuito de ajudá-lo a vencer as suas más inclinações e dirigi-los na senda do bem, mesmo sabendo que possa ser uma tarefa hercúlea.
Uma vez encarnados, se o filho insiste pelo caminho do mal, apesar dos cuidados que lhe dispensam, a responsabilidade deixa de ser dos pais e passa a ser depositada no exercício do livre arbítrio do filho. Neste caso, a tarefa dos pais é muito mais pesada e maior será o seu mérito se conseguir desviá-lo do mau caminho. [1]
Os pais devem sempre ter em mente que foi Deus que colocou o filho sob a sua tutela. Logo, é uma missão dada pelo criador. E enquanto se tem a possibilidade de cumpri-la, não se pode desistir de forma alguma. Ainda que seja por meio da prece de amor sincero advindo do fundo da alma, caso a distância física pelo afastamento do filho se torne uma barreira natural. [1]
E se não tiveram sucesso até então em sua empreitada, a par de esforços verdadeiros, não devem se punir por isso. Mas confiar cada vez mais em Deus. E ter em mente que nem sempre se consegue corrigir em 50 anos o que há séculos e séculos se encontra corrompido no espírito. Porém terão ajudado a semear mais uma semente de amor e do caminho do bem no seio daquele espírito o qual um dia irá certamente despertar.
Por outro lado, não cabe a ninguém julgar as condições existentes no seio de uma outra família. Se as teias do esquecimento fazem com que não saibamos mais quem fomos e o que fizemos em outras vidas no âmbito de nosso lar, que dirá saberemos sobre a vida de terceiros.
Somente a Deus que tudo sabe, pertence a possibilidade de nos julgar. E ainda assim O faz pela Sua infinita bondade sem nunca desistir de nós e sempre nos concedendo uma nova oportunidade de progredir.
Márcio Martins da Silva Costa
Nota do Editor:
Texto publicado na Revista Digital “Candeia Espírita” (USE-SJC/SP), nº 31, de abril de 2024.
Referência:
[1] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, 93a. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.
[2] A. Kardec, O Céu e o Inferno, 61a. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.
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