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Sonho ou realidade?

maio 8, 2024

Clóvis havia acabado de ter um desentendimento com a sua esposa. A tônica eram as divergências na educação dos filhos. Ele, rígido demais; ela, extremamente complacente com os deslizes críticos de comportamento com os quais os adolescentes vinham se portando no lar e na escola.

O amor e o respeito do casal não permitiram que o assunto evoluísse e ambos deram um freio no impulso de suas palavras, evitando que a contenda chegasse a patamares indesejáveis.

Mesmo assim, o embate foi suficiente para deixar Clóvis exaltado e transtornado com a situação.

Sem mais o que dizer, dirigiu-se para o seu quarto e deitou-se na cama do jeito que estava. Em um primeiro momento, virou-se de um lado para o outro no travesseiro. Achava que não iria conseguir dormir. Mas o cansaço falou mais forte, levando-o ao torpor, seguindo-se de um sono profundo.

Mas, de súbito, sentiu que não havia mais luz em casa. Levantando-se em meio ao escuro estranho que havia dominado o lar, saiu do quarto, cruzou o corredor e não ouviu a voz de ninguém da família. Tinha sensação de que a esposa e os filhos estavam lá, porém sem saber onde e sentindo-se impotente para achá-los.

Decidiu ir até a porta da sala, de onde ouvia um ruído como se houvesse alguém lá fora. Girou a chave, abriu uma fresta e sentiu uma mão desconhecida forçando a maçaneta para entrar.

Sentiu o coração pulsar.

Reunindo as forças que tinha, bateu à porta, empurrando para fora o visitante indesejável. A sensação nítida era de que alguém ou alguma coisa queria entrar em sua casa em meio aquela escuridão e silêncio fúnebre.

Em seguida lembrou da porta dos fundos. Precisava fechar também. Voltando-se a outro canto da casa, correu e fechou o outro acesso com as chaves que tinha.

Mas ao retornar à entrada da sala, encontrou a porta principal escancarada. Alguma coisa havia entrado. A família estava em risco.

Sentiu-se trêmulo, nervoso, suando frio, pois, naquele contexto, não sabia que solução dar.

Encolheu-se e começou a mexer a cabeça de um lado para o outro, quando sentiu a esposa lhe tocar a face lhe chamando suavemente:

– Querido, querido, acorde! Está tudo bem com você?! Está suando frio e se mexendo.

E trocando um abraço carinhoso e de alívio com a sua companheira, sentiu a luz voltar não só para o lar, mas para o seu coração também.

*     *     *

Nosso corpo não é uma estrutura física desenvolvida para estar em vigília o tempo todo. Ele precisa do sono para reparar as suas foças orgânicas. Mas também foi concedido ao homem para reparar as forças morais. [1]

Enquanto o corpo repousa, afrouxam-se os laços fluido-magnéticos e o espírito tem oportunidade de se lançar ao espaço, encontrando-se com outros espíritos. [2], [3]

Afastando-se parcialmente de sua roupagem física, percorre caminhos que podem ser curtos ou bem longos para nossa percepção sensorial. Da mesma forma, pode cruzar períodos temporais que fogem ao nosso entendimento, voltando ao passado, vivenciando o presente ou até mesmo indo ao futuro.

Para espíritos em melhores condições morais ou espíritos elevados, é a oportunidade de retemperarem-se na fonte do bem, reunindo-se a outros irmãos para se instruírem e realizarem atividades edificantes. [3]

Já os menos favorecidos, cuja faixa de ondas mentais cria sintonia com outros espíritos em mesma condição, muitas vezes percorrem caminhos deprimentes onde encontram gozos muito mais vis em relação àqueles que lhe são socialmente cerceados em vigília.

Estes ainda podem ir ao encontro de companhias questionáveis que lhe assolam o ser, tornando o momento dedicado ao descanso do corpo em um período de agonia para o espírito.

Mais adiante, ao retornarem completamente ao corpo físico, alguns despertam renovados; outros, exauridos pelos reflexos das atividades intensas as quais se dedicaram.

Por sua vez, a lembrança do que fora realizado muitas vezes é penalizada pela incapacidade do corpo físico em registrar tudo aquilo que é captado pelas potencialidades muito mais amplas do espírito. E, às vezes, daquilo que nos é dado a conhecer, restam apenas cenas fragmentadas e sem sentido à nossa limitada compreensão do universo espírito-material à fora.

A crônica sobre Clóvis, baseada em experiências reais, permite-nos refletir algo de extrema importância para todos nós.

Nem sempre damos conta, mas o sono assume uma importância e uma influência marcante em nossas vidas. Conhecemos os seus benefícios em prol do corpo físico, todavia olvidamos a sua atuação em nosso progresso moral.

Em verdade, dedicamos, em média, oito horas por dia junto a irmãos espirituais que podem estar nos ajudando ou então levando nossa alma a abismos mais profundos e indesejáveis ao nosso progresso.

Assim, devemos sempre nos preparar adequadamente para o momento do sono. Buscar antes a harmonia de sentimentos, a paz e a prece à Deus. Só assim poderemos trilhar por caminhos venturosos onde contaremos com a presença de amigos focados somente na caridade, no amor e envoltos em ditosa luz.

Márcio Martins da Silva Costa

Referências:
[1]    A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, 131a. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.
[2]    Pelo Espírito André Luiz, Evolução em Dois Mundos, 27. ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 1958.
[3]    A. Kardec, O Livro dos Espíritos, 93a. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.

Márcio Costa
Márcio Costa

Membro do Conselho Editorial da Agenda Espírita Brasil, atua na divulgação da Doutrina Espírita escrevendo textos e realizando palestras.

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