
Semana Santa
– Comprando uns peixinhos, Lucas?
– Pois é, precisamos guardar o preceito de não comermos carne, na Sexta-Feira Santa, para não cometer pecado.
– Qual a finalidade disso?
– Ora, Cavalcante, é fazermos penitência pela morte do Senhor Jesus, bem como, no domingo de Páscoa, a sua ressurreição conforme o ritual da Igreja Católica.
E vocês, espíritas, comemoram a morte de Cristo e a sua ressurreição?
– A leitura que o Espiritismo faz dos Evangelhos é um pouco diferente de outras religiões.
Se você me permite, farei a citação de Allan Kardec, na introdução do seu estudo, publicado em livro, O Evangelho Segundo o Espiritismo, que, por coincidência, estou portando em minha pasta.
Ei-lo: “ Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva.
É terreno onde todos os cultos podem reunir-se, estandarte sob o qual podem todos colocar-se, quaisquer que sejam suas crenças, porquanto jamais ele constituiu matéria das disputas religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões dogmáticas.
Aliás, se o discutissem, nele teriam as seitas encontrado sua própria condenação, visto que, na maioria, elas se agarram mais à parte mística do que à parte moral, que exige de cada um a reforma de si mesmo.
Para os homens, em particular, constitui uma regra de proceder que abrange todas as circunstâncias da vida privada e da vida pública, o princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça. É, finalmente e acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura… (O Evangelho Segundo o Espiritismo – Introdução, Allan Kardec – Ed. FEB).
– É, interessante, Cavalcante, essa parte moral dos ensinos do Senhor Jesus, mas e a comemoração pelos fiéis espíritas da morte e ressurreição?
– Lucas, o Espiritismo não tem dogmas ou rituais.
Ele nos ensina a analisar os fatos vividos por Jesus e as palavras por ele proferidas, segundo o relato dos evangelistas.
Nesse caso é de se considerar os constantes confrontos do Mestre Jesus com a dogmática religiosa farisaica, que culmina com a trama da sua prisão, tortura e morte na cruz, como apoio dos romanos, representando o domínio do poder político exercido pelo imperador de Roma.
Portando, nessa cena temos o doloroso exemplo do fanatismo religioso, expresso do domínio emocional da massa e do imperialismo político dos dominadores de povos e nações em confronto com os preceitos de Justiça e Amor, constantemente expressos por Jesus nos seus ensinamentos Morais.
Nesse confronto, é óbvio, que Herodes, servindo-se do poder religioso e Pilatos, representante do imperador César, precisavam calar a poderosa voz de Jesus, libertadora das pessoas e dos povos.
– E, como vocês espíritas comemoram isso?
– Como já disse, e citei o trecho do livro, anteriormente: procurando estudar os ensinamentos éticos ou morais de Jesus para aplicá-los em nossa reforma íntima e na reestruturação progressiva da sociedade para que ela seja mais justa e amorosa.
E olhe, também vou comprar um peixinho para “aquela” bacalhoada, Lucas.
– É isso aí, Cavalcante, que a comemoração material nos ajude na comemoração espiritual. Até mais!
Aylton Paiva
Veja também
Ver mais
Mais entusiasmo do que reflexão

Observemos

