
O evidente desinteresse pelo estudo
Allan Kardec nos apresentou a Doutrina Espírita como uma ciência de consequências filosóficas e morais. Toda ciência ou filosofia só pode ser aprendida pelo estudo e pela experiência, exigindo do aprendiz vontade, dedicação e perseverança. Estamos, portanto, diante de uma grande escola espiritual e quem quiser aprofundar o conhecimento deverá a ela se dedicar.
Na introdução de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec afirmou: “Acrescentemos que o estudo de uma doutrina, qual a Doutrina Espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado”.
A orientação do Codificador tem respaldo no ensino de Jesus quando alertou que a nossa libertação espiritual depende do conhecimento da verdade (João 8:32); e também segue o mandamento do Espírito de Verdade: Amai-vos e instruí-vos (OESE, capítulo VI).
Não por acaso, Jesus aceitou apenas o título de Mestre; e Kardec era um pedagogo renomado. Ambos com o propósito de ensinar à humanidade as leis naturais.
Dessa forma, o aprofundamento do estudo é indispensável, pois a superficialidade pode levar a uma incorreta compreensão dos ensinamentos, resultando em conclusões falsas, capazes de nortear pensamentos e ações inadequadas, gerando sofrimento.
O espírita sempre foi considerado um grande leitor, consumidor das muitas obras publicadas. Atualmente, observa-se uma diminuição desse interesse, constatada pela baixa procura de livros nas livrarias e bibliotecas dos centros espíritas.
Consultei a Editora EME, responsável pela publicação dos meus livros, e obtive dados que confirmam essa percepção. Segundo Arnaldo Divo – proprietário e editor –, em 2019 atendiam 237 clubes de livros espíritas, número que em 2025 caiu para 135. Além disso, houve também uma sensível diminuição no número de associados dos clubes remanescentes. Quanto à publicação de livros, a tiragem costumava ser de 3 a 5 mil exemplares; atualmente, imprimem entre 1 e 2 mil exemplares, realizando reedições quando há maior procura.
Esse desinteresse pelo estudo não é fenômeno apenas do espírita, mas da sociedade como um todo. Pesquisas recentes mostram uma queda significativa no número de leitores em todo o país, com milhões de pessoas deixando de ler livros nos últimos anos
A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 2024” mostrou que, pela primeira vez, a maioria da população (53%) não leu nenhum livro nos meses anteriores, resultando em uma perda de quase 7 milhões de leitores desde 2019.
Dentre as causas gerais de diminuição de leitores, que afetam diretamente o interesse pela leitura de livros espíritas, destacam-se:
1- Escolas sem força na formação de leitores.
2- Falta de políticas públicas para o incentivo à leitura, com a falta, inclusive, de bibliotecas em muitas escolas ou de bibliotecas não aparelhadas.
3- Aumento do analfabetismo funcional na população.
4- Déficit de atenção causado pela internet, decorrente da preferência por conteúdos digitais curtos. Não se tem paciência para textos mais longos e que pedem reflexão.
5- Ausência de tempo livre para a leitura, com preferência a outras formas de lazer.
No movimento espírita, merece destaque a proliferação de conteúdos nas mídias digitais — palestras, seminários, cursos, podcasts, entre outros. Se, por um lado, esses recursos ampliam o acesso aos ensinamentos espíritas, por outro, podem favorecer a acomodação: física, ao manter a pessoa no conforto do lar; e intelectual, ao reduzir a necessidade de esforço para o aprofundamento dos temas.
O custo do livro não representa um impeditivo, já que, em média, uma obra espírita custa entre 40 e 50 reais — valor inferior ao de um lanche ou refeição em restaurante. Além disso, há a opção do e-book, geralmente comercializado por um preço ainda mais acessível que o do livro físico.
O desinteresse pelo estudo espírita traz consequências tanto para o indivíduo quanto para o movimento espírita.
No âmbito pessoal, podemos destacar:
1- Perda da base doutrinária – o indivíduo permanece na superficialidade do entendimento, sobretudo nas questões mais complexas e reflexivas.
2- Enfraquecimento da capacidade crítica e da argumentação – a pessoa torna-se mais suscetível a absorver opiniões, ideias e explicações incorretas.
3- Tendência à idolatria – há risco de venerar determinados divulgadores espíritas pelo destaque que alcançaram, sem analisar com profundidade o conteúdo de suas exposições.
4- Retardo no progresso moral – sem o aprofundamento do estudo e a compreensão dos ensinamentos espirituais, o avanço pessoal é comprometido e aumenta a possibilidade de desvio do caminho do bem.
5- Participação limitada nos debates coletivos – sem reflexão própria, a contribuição consciente diminui, restringindo-se à repetição de discursos alheios.
Para o movimento espírita:
1- Perda da identidade doutrinária – aumento das interpretações equivocadas, enfraquecimento das instituições e redução do número de adeptos.
2- Risco de afastamento da codificação original – o ensino e a prática podem se distanciar das bases doutrinárias, misturando espiritismo com misticismo ou crenças populares.
3- Queda na qualidade das atividades – palestras, cursos e grupos de estudo tornam-se menos consistentes e profundos.
4- Fragilização da credibilidade – o movimento perde força, gerando divisões internas e insegurança entre os participantes.
5- Diminuição da relevância social – sem o caráter racional e filosófico sustentado pelo estudo, o espiritismo perde vigor como proposta cultural e espiritual.
Embora as dificuldades na reversão desse quadro, que tem raízes também na crise cultural da sociedade brasileira, podemos pensar em algumas propostas:
1- Fortalecer grupos de estudo: incentivar a leitura coletiva das obras básicas.
2- Educação espírita moderna: Usar recursos digitais (podcasts, e-books, cursos online) para atrair jovens.
3- Formação de lideranças: Capacitar dirigentes e palestrantes para manter a fidelidade doutrinária.
4- Integração comunitária: Mostrar como o estudo espírita se conecta com problemas atuais da sociedade.
Se você chegou ao final deste artigo, revela que se preocupa com o futuro da sociedade e do movimento espírita. Então, procure ajudar conforme as suas possibilidades.
Donizete Pinheiro
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Boa tarde, irmãos e irmãs.
Paz, com Jesus.
Muito obrigado pelos comentários, reforçando a nossa percepção.
Precisamos, mesmo, contribuir para reverter esse desinteresse que observamos.
Abraço Fraterno.
Donizete
Muito bom o artigo, reflete realmente o que está acontecendo.Precisamos fazer nossa parte.
Bom dia Sr Donizete,
Agradeço ao senhor a possibilidade do compartilhamento de tais fatos, pois nos sacode para acordar para as verdades da vida.
Eu costumo pegar na biblioteca e nos centros espíritas . Eu tinha assinatura mas por questão financeiras tive infelizmente de cancelar pois perdi minha renda. Fiquei triste. E tem muitos livros que gostaria de comprar . Mas a situação financeira melhorando vou voltar a assinar. Mas estou sempre lendo pegando emprestado.
Fui buscar na internet a média de livros que um inglês, um francês e italiano leem por ano. ficou na casa dos 14 livros, sendo os franceses com até 21 livros por ano. Argentina na frente do Brasil com média de 5,5 livros. Ganhamos da Bolívia, que lê de 1 a 3 livros por ano. Percebe-se que vai diminuindo o IDH e os livros vão desaparecendo da prateleira. E isso é no mundo como um todo, desde muito. Nesses países ditos de 3º mundo, o que se vê é a educação relegada a um 3º ou 4º lugar dentro das prioridades, enquanto a sobrevivência ou o “pão na mesa” é o centro das atenções na família. E isso, no Brasil, independe da família ser da religião católica, protestante, espírita ou outra. Todas sofremos das mesmas mazelas. Voltando ao assunto: A casa espírita tem que ajudar na divulgação de obras espíritas? Claro. Clube de livros precisam rever seus títulos, que buscando baratear o custo mas também diminuíram a qualidade doutrinária e afugentou seus leitores conscientes? Mais que sim.
Concordo plenamente com o articulista, vamos procurar fazer a nossa parte como dirigente e expositor espírita,
Necessário reviver Kardec e aceitar os ensinamentos de Jesus, vivenciando as suas lições.
Esse assunto é de total importância aos Dirigentes das Casas Espíritas. Penso que podemos agregar condutas voltadas ao conhecimento das obras doutrinárias de diversas formas. Estou facilitadora dos Cursos na Associação Espírita Mariano do Nascimento- Ribeirão Preto- e contribuo na coordenação e acompanhamento dos estudos. Os alunos, além das aulas presenciais, apresentam seminários, intercalando com a temática de estudos semanais. Temos também os estudos online com uma obra selecionada, em conformidade com os trabalhos da casa ou do grupo de trabalho. Os seminários, apresentados pelos alunos, possuem temas diversos, de acordo com o estudo e respectivas turmas: Biográficos, Históricos, Doutrinários, entre outros. Procuramos também identificar os possíveis talentos, para a sucessão nos trabalhos, preocupação de todas as Associações Espíritas que necessitam, para um futuro próximo, renovar sua demanda de voluntários. No grupo de trabalho as equipes estão divididas em sub grupos, e cada semana apresentam um capítulo do Pentateuco. É um estudo que não tem data para acabar, porque todos os livros serão estudados de forma gradativa. Creio que a responsabilidade cabe à todos nós. Sou apreciadora de livros espíritas, sérios e confiáveis, sem apelos comerciais e incentivo a leitura aos aprendizes, que como eu, precisam entender a Doutrina, sem dogmas, baseada na filosofia, ciência e moral, preconizados pelo Cristo, incentivando o estudo e a compreensão lógica e a fé raciocinada.
Concordo plenamente com as observações desse artigo, essa questão é crônica nos dias de hoje em nossa sociedade.
Por isso parabenizo nosso grupo da mocidade do GEJN por estarem utilizando um livro para o estudo semanal.
Há a necessidade de ensentivar a leitura entre todos os frequentadores das casas espíritas com frequência.
Adriana Cazatti
Prezado confrade Donizete, realidade experimentada na casa espírita que eu frequento. Tínhamos um Clube do Livro Espírita, que foi perdendo seus associados que reclamavam que tinham uma “pilha” de livros. Fornecíamos um livro por mês. Para continuar incentivando o hábito da leitura, estamos viabilizando um Clube de Leitura, quando pretendemos ler um livro a cada três meses (por enquanto), para então fazer uma reunião, a princípio virtual, para conversarmos sobre o livro lido. Pretendemos adotar as dicas seguintes que você sugere.
Fraternais abraços,
Flávio Rolim