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Esquecer é preciso

julho 2, 2017

Dentre as sábias e misericordiosas leis divinas, destaca-se aquela determinando o esquecimento de quem fomos e como agimos em nossas muitas vidas pregressas, contudo, temporariamente, apenas durante o período quando nos encontramos mais uma vez reencarnados.

Questão rotineiramente abordada em palestras, estudos e conversas espíritas, pois, quem sabendo já ter vivido outras vidas não deseja saber em detalhes: qual nome teve, onde reencarnou, em qual época, como agiu, com quem se relacionou, foi um nobre ou um plebeu, como morreu, e tantas outras questões surgindo em nossas mentes, quando nos detemos a refletir sobre nossas múltiplas existências?

Todas as leis do Criador são perfeitas, visam, única e exclusivamente, nos apoiar em nossa trajetória rumo à perfeição possível de ser alcançada. Esta, o esquecimento do passado, não foge à regra, embora, para muitos seja motivo de certo desconforto, pois creem deveriam se lembrar de tudo, afinal participaram ativamente em outros grupamentos familiares ocupando posições outras daquelas ora ocupadas na família atual.

Existe uma razão técnica promovendo este esquecimento. Quando reencarnamos, há uma diminuição da frequência na qual vibramos devido à própria imersão mais uma vez em um corpo material (1), além disso, o perispírito sofre uma espécie de abafamento, não permitindo assim que as informações armazenadas nesta estrutura eletromagnética, termo este cunhado por André Luiz (2), possam ser acessadas e recordadas livremente pelo Espírito. Há desta forma, uma providência divina natural, atuando no sentido de provisoriamente esconder o passado de nós mesmos.

Mas qual a razão deste esquecimento? Quais seriam os motivos para a Divindade impor esta condição? Afinal, o passado é nosso, fomos nós os partícipes das situações vividas! O que demais poderia haver em se lembrar destas vidas? Podemos garantir: demais não haveria nada, só haveria de menos.

A trajetória evolutiva dos Espíritos se faz de três maneiras distintas: há aqueles obrando única e exclusivamente no bem desde o início, enquanto outros fazem o oposto, ou seja, só atuam no mal; estes dois são os casos extremos, e existem aqueles avançando através da repetição de lições, desvios constantes, períodos de estacionamento no processo evolutivo, entre outros muitos percalços possíveis.

Sabe-se ser esta última, a situação mais comum dos Espíritos encarnados e desencarnados gravitando em torno da Terra, sendo exatamente a condição a nos caracterizar no momento, senão, reflitamos: em qual planeta habitamos? Mundo de provas e expiações, em via de se regenerar. Orbes desta categoria, o nome já indica, são caracterizados por ter como habitantes Espíritos que de ordinário não se destacam como bons exemplos de evolução. Não são criaturas, na média, vitoriosas sobre si mesmas, não são portadoras de virtudes e padrões morais e éticos podendo ser exaltados e copiados, muito pelo contrário, basta observar a humanidade terrena, com suas múltiplas guerras, inúmeros conflitos, imoralidades de toda ordem, baixíssimos padrões éticos, escassez de bons exemplos de homens virtuosos, tanto isto é verdade que quando se descobre um virtuoso no seio da sociedade, este destaca-se imediatamente, pois está fora da curva evolutiva do planeta, é coisa rara, para ser guardada a sete chaves.

Este mecanismo divino foi registrado por Allan Kardec em O livro dos Espíritos (3): Uma vez que há Espíritos que, desde o princípio, seguem o caminho do bem absoluto e outros o do mal absoluto, haverá, talvez, gradações entre esses dois extremos? ─ “Sim, certamente, e constituem a grande maioria.”

Sendo este o padrão de normalidade dos habitantes em nosso planeta, o que podemos imaginar tenhamos realizado em nossas existências pregressas? Certamente não tivemos numerosas atuações nobres, senão, já estaríamos em outros mundos mais avançados. Assim, pode-se assegurar categoricamente, sem sombra de dúvidas: o nosso passado não é dos mais exemplares; somos caracterizados por altos e baixos, entretanto, seguramente mais baixos do que altos.

Cabe aqui uma nota importante: esta é a condição mediana no planeta Terra, mas a humanidade não se restringe a este planeta, a humanidade é formada por todos os “zilhões” de Espíritos que alcançaram o reino hominal; na Terra há apenas uma fração ínfima deste conjunto, tendo sido aqui trazidos, no passado e no presente, por similitude de pendores.

Sendo esta uma verdade, por qual razão se recordar ou tentar se lembrar deste passado não muito digno? Ganharíamos algo com esta recordação? E mais, existe alguém que se satisfaça, encontre prazer em lembrar os deslizes cometidos na atual existência? Não é regra tentarmos, por todos os meios possíveis, apagar de nossa memória aquilo a nos incomodar do ponto de vista moral e ético? Aliás, há muitos fatos da vida presente que se apagam temporariamente e de forma natural. Evidentemente aqui nos referimos àqueles Espíritos possuidores de um mínimo de integridade moral; os que se comprazem no mal, em nada se preocupam em recordar os seus deslizes, muitos chegam até a se vangloriar de seus feitos imorais.

Contudo, é conveniente fazer uma ressalva, embora não nos recordemos corriqueiramente das vidas anteriores, todas as conquistas construídas no pretérito, em termos de virtudes e intelecto, permanecem conosco, jamais se perdem, possibilitando desta forma que nos beneficiemos da melhora promovida em nós mesmos, através de nossos esforços em termos de moralidade e inteligência, em anteriores vivências, este outro sábio mecanismo divino impedindo que em cada nova existência recomecemos o nosso processo evolutivo do zero.

A lembrança do passado só é útil quando o Espírito já construiu a sua fortaleza moral para enfrentá-la com humildade, aproveitamento, os seus deslizes e desventuras de antigas vidas. Não é possível retirar lições de condutas delituosas passadas, se ainda nem sequer conseguimos nos suportar; respeitar a crença alheia; tolerar as diferentes raças; entender as possíveis opções de conduta sexual; pacificar ao invés de guerrear; entre tantas condutas egoístas passíveis de serem elencadas caracterizando plenamente o nosso século.

Caso contrário, se o Espírito desvenda o seu passado, sem estrutura interior, equivale a abrir a caixa de Pandora (4), surgem fatalmente entre outros: culpa, remorso, vergonha, desespero, sentimentos que dificilmente sabemos bem lidar, visto que estamos ainda desprovidos de fortaleza moral adequada, aos quais, acrescidos dos momentos infelizes da vida atual, pressionariam de tal modo levando ao desequilíbrio qualquer Espírito mediano, como a maioria de nós.

É fato que alguns se relembram de alguns aspectos de anteriores existências, não há o olvido absoluto; entre estes há médiuns necessitados destas informações para bem se conduzirem em suas particulares missões, mas esta recordação é natural, não houve provocação ou busca forçada por este passado. Por alguma razão, desconhecida no momento, Deus permitiu esta lembrança.

Não nos preocupemos em demasia com o pretérito, observemos a nossa vida presente, “recordemo-nos” das existências pregressas observando as nossas atuais inclinações e tendências naturais, pois, nada mais representam do que traços de nosso caráter construídos em outras vidas. Se os reconhecemos destoantes da boa moral, fustiguemos estes aspectos da personalidade ainda a nos caracterizar, suplantemo-los através de boas ações, atitudes nobres, padrões caridosos; vivamos o bem agora, e as marcas indesejadas do passado serão totalmente superadas, podendo então ser lembradas sem qualquer impedimento maior. Por outro lado, se os identificamos salutares, boas propensões, fortaleçamo-las, pois são indicadoras de que em existências anteriores buscamos o bem, acima de tudo.

Desta forma, o véu total, o mais comum, ou parcial, imposto pelo Criador sobre o nosso passado é salutar, benéfico e providencial, tenhamos certeza disto.

Rogério Miguez

Referências:
(1) XAVIER, Francisco C. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. 14. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1989. cap. XIV; 
(2) ______, VIEIRA, Waldo. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1959. cap. 2; 
(3) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Comemorativa do Sesquicentenário. Brasília: FEB, 2007. q.124; e
(4) Caixa de Pandora: é um artefato da mitologia grega, tirada do mito da criação de Pandora, que foi a primeira mulher criada por Zeus. A “caixa” era na verdade um grande jarro dado a Pandora, que continha todos os males do mundo. Pandora abre o Jarro, deixando escapar todos os males do mundo, menos a “esperança”. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Caixa_de_Pandora>. Acesso em: 07/06/2016.

Nota do Editor:
Imagem em destaque disponível em <https://www.videocurso.blog.br/single-post/2017/01/22/Olhando-pelo-retrovisor—REPRISE>. Acesso em 02JUL2017.

Rogério Miguez
Rogério Miguez

Trabalhador da Doutrina Espírita desde a Mocidade, tendo atuado no estado de Rio de Janeiro em algumas Casas e, atualmente, em São José dos Campos/SP nos Centros Amor e Caridade, Jacob e Divino Mestre. Colabora em Cursos, Exposições, Atendimento Fraterno e Passes, sendo articulista dos periódicos Reformador e Revista Internacional de Espiritismo.

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