Página InicialOs homens devem morrer uma só vez

287 visualizações

Os homens devem morrer uma só vez

abril 29, 2020

E como é fato que os homens devem morrer uma só vez, depois vem um julgamento”
Epístola aos Hebreus, 9,27

 

É certo que as epístolas enviadas pelos seguidores de Jesus nos trazem uma fonte inesgotável de informações sobre fatos e acontecimentos que se desencadearam após a crucificação, mostrando a atividade desenvolvida pelos cristãos para levar a palavra salvadora para a população em geral. Dentre essas cartas, encontra-se a Epístola aos Hebreus, cujo teor foi inserido nos livros que formam o conjunto bíblico do Novo Testamento.

Antes de adentrarmos na análise do conteúdo inserido nesta carta, em especial sobre o trecho acima destacado, cabe ressaltar que a sua autoria ainda hoje é objeto de controversas entre estudiosos e teólogos. Devido ao estilo literário que esta carta traz em seu bojo, conquanto à forma que o seu escritor se refere ao Antigo Testamento, pela falta do preâmbulo e endereçamento que era comum no início das demais epístolas faz com que muitos discutam se esta missiva seria de São Paulo.

Outra questão de relevo em relação à Epístola aos Hebreus é quanto à ordem apresentada pelo seu texto, apresentando “súbitos desligamentos (3,1; 8,1; 10,1; 13,1), repetições (2,1-4 e 12,25; 2,17-18 e 4,14-16; 6,4-8 e 10,26-31) e, sobretudo, retomadas do tema principal depois de longos intervalos que se encaixam mal no contexto (4,4-16; 5,9-10; 6,20; 8,1-2; 9-11; 10,19-23)” (1).

Pontuada essas premissas iniciais, as quais em hipótese alguma tem o condão de desqualificar o conteúdo do texto, porém apenas destacar sérias discussões travadas por estudiosos acerca desta carta, o presente ensaio busca analisar o versículo 27 do Capítulo 9 assim descrito: “E como é fato que os homens devem morrer uma só vez, depois vem um julgamento”.

Vejo muitos críticos à teoria da reencarnação se utilizar deste versículo, de forma isolada, para tentar colocar abaixo uma das mais justas pilastras da Lei Divina. Os textos bíblicos não podem ser analisados pela literalidade de suas palavras e tomar por verdade um trecho isolado, desconsiderando todo o contexto em que está inserido. Sabemos que muitas passagens vêm carregadas de simbolismos e colocações poéticas para dar ênfase àquilo que o seu autor quer expressar. Essa técnica é comum nos dias de hoje.

No versículo em comento o autor do texto, que aqui atribuiremos a São Paulo – não se descurando das questões acima apontadas, vem desenvolvendo um raciocínio sobre a morte do homem Jesus Cristo, narrando o perecimento de seu corpo físico para que os pecados do mundo fossem abolidos pelo ato do seu sacrifício, conforme se destaca nos versículos 24 a 26 (ou se preferirem, fazer uma leitura a partir do versículo 15 em que se analisa a morte de Cristo em contraponto com os sacrifícios realizados pelos Sumos Sacerdotes), para então destacar que os homens devem morrer uma só vez.

Os adeptos da teoria da reencarnação, e em especial a Doutrina Espírita, também estão de acordo com o apóstolo Paulo quando este declarou que o homem encarnado deve morrer apenas uma só vez.

Para cada encarnação uma morte, eis a regra de ouro!

Assim se referia Paulo quando vinha descrevendo no contexto dessa passagem de sua epístola, asseverando que o corpo físico do “Cristo foi oferecido uma vez por todas para tirar os pecados da multidão” (2). Com a morte do corpo físico de Jesus, o seu espírito sobrevive por este ser eterno e imortal. Para àqueles que ainda não atingiram o estado de perfeição, a condição de espírito puro, após a morte do corpo físico é necessário que este retorne ao estado da matéria humana para que possa progredir e depurar-se, buscando sempre a evolução espiritual. A partir daí então se inicia uma nova encarnação para o mesmo espírito, que voltará a habitar temporariamente um novo corpo e desta nova etapa haverá apenas uma morte, como bem exemplificado no texto bíblico em comento. E para cada morte um julgamento, para assim se faça uma programação reencarnatória daquele espírito que irá retornar ao seio carnal. Note que o texto diz “um julgamento” e não “o julgamento”. Portanto, Paulo diz que para cada morte um julgamento (3).

A palavra reencarnação não existia quando esses textos bíblicos foram escritos, porém o seu sentido está claro quando deparamos com o contexto geral em que o apóstolo tenta explicar a ressurreição: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (4). E continua: “Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam? Insensato! O que semeias, não readquire vida a não ser que morra. E o que semeias, não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas um simples grão, de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir Deus lhe dá corpo como quer; a cada uma das sementes ele dá o corpo que lhe é próprio” (5).

Antes de Paulo assim se manifestar, Cristo já havia nos demonstrado que Deus nos dá o corpo como quer, segundo a seguinte passagem: “Eu vos digo, porém, que Elias já veio, mas não o reconheceram… Então os discípulos entenderam que se referia a João Batista” (6). Nesta passagem em que é feita alusão de que o espírito de Elias veio num momento futuro reencarnar num corpo físico diferente, o qual fora chamado de João Batista, donde os homens não puderam reconhecê-lo, mostra Jesus nos ensinando sobre a reencarnação. A ressurreição, tal qual hoje conhecemos, é a volta do espírito ao mesmo corpo físico que este habitava antes ter sido dado por morto, o que não é o caso narrado por Jesus em relação a Elias. Porém, àquela época, não se fazia distinção entre os conceitos de ressurreição e reencarnação pelo fato de que esta última palavra sequer existia.

Ainda em Hebreus o apóstolo nos dá esse ensinamento sobre a mudança da veste corpórea: “Eles perecerão; tu, porém, permanecerás; todos há de envelhecer como um vestido; e a todos enrolarás como um manto, e serão mudados como vestimenta. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim” (7).

Nesta importante passagem bíblica Paulo mostra que o corpo, após ficar velho e perecer, tal qual um vestido, será trocado por outro, porém o espírito que o “vestirá” continuará sendo o mesmo, coadunando esse ensinamento com os critérios da reencarnação.

Recusar os dogmas da reencarnação, acreditando que aqueles que não obtiverem êxito em uma única oportunidade para crescer espiritualmente ficarão perpetuamente lançados à própria sorte é desacreditar nas palavras do Mestre Nazareno, que nos ensina a perdoar sempre as ofensas recebidas (8) – seria Deus, soberanamente bom e justo, incapaz de nos perdoar a ponto de nos lançar em penas perpétuas, nos privando de uma nova oportunidade?; ou quando assevera que é da vontade de Deus que nenhum de seus filhos se perca (9) – se o Cristo não perderá nenhuma de suas ovelhas, como fazer com aqueles que irão definitivamente para o inferno?

A prova da reencarnação não tardará. A ciência, antes resistente, apartada dos conceitos religiosos já vem demonstrando que o regresso do espírito a um novo corpo é fato. Vários estudos, dentre os quais se destaca o Drº Ian Stevenson, médico psiquiatra, tem comprovado que pessoas, em muitos casos crianças, se lembraram de suas vidas anteriores, indicando com precisão nomes, lugares, datas, fatos que aconteceram no passado e que pelo atual estágio de vida não tinham como ter conhecimento.

Glaucio Queiroz Oliveira

Referências:
(1) Bíblia de Jerusalém, 1ª Edição, 9ª Reimpressão, Introdução à Epístola aos Hebreus, 2084;
(2) Hebreus, 9, 28;
(3) Vide Severino Celestino da Silva, Analisando as Traduções Bíblicas, 6ª ed., pg 318;
(4) I Coríntios, 15, 32;
(5) I Coríntios, 15, 35:38;
(6) Mateus, 17, 12:13;
(7) Hebreus, 1, 11:12;
(8) 18, 22; e
(9) Mateus, 18, 14.

Nota do editor:
Imagem em destaque disponível em
<https://waswirnichtwissen.wordpress.com/2014/09/11/der-fall-jenny-cockell/>. Acesso em 15FEV2017.
Fotos ilustrativas de Mary Sutton (à esquerda) e Jenny Cole (à direita),  personagens do filme “Minha Vida na Outra Vida” (“Yesterday’s Children“, Estados Unidos, 2000). A história conta os desdobramentos dos fatos ocorridos com Jenny Cole ao começar a relembrar de sua vida em outra encarnação.

Veja mais em <https://agendaespiritabrasil.com.br/2017/02/15/reencarnacao/>, por Vania Mugnato de Vasconcelos.

Glaucio Antonio de Queiroz Oliveira
Glaucio Antonio de Queiroz Oliveira

Glaucio Antonio de Queiroz Oliveira, natural de Aparecida do Taboado/MS, iniciou na doutrina espirita aos 16 anos de idade, exercendo diversas atividades na casa espírita. Atualmente participa de grupos de estudos, grupos mediúnicos e possui obras literárias psicografadas.

Deixe aqui seu comentário:

Divulgue seu evento conosco.
É rápido, fácil e totalmente gratuito!

+ Clique e saiba como