
Uma linha originária de argumentação de Léon Denis no livro “O porquê da vida”.
Sempre que o escritor espírita Léon Denis é citado, recordo-me do expositor fluminense Raul Teixeira contando a história da descoberta dos escritos de Allan Kardec pelo jovem de Tours, na França. Denis era o que chamaríamos aqui de “arrimo de família”, auxiliando desde a infância com seu trabalho o orçamento da casa. Aos 18 anos, em 1864, ele encontrou e comprou O Livro dos Espíritos em uma livraria da cidade. Henri Regnault (1) diz que ele ocultou o livro da mãe, temeroso que ela não o aprovasse.
Romanceando o evento, Raul dizia que Denis escondera o livro embaixo da cama, e que o lia à luz de velas à noite, após recolher-se aos seus aposentos. A mãe de Denis, contudo teria descoberto o livro enquanto arrumava o quarto do filho, e receosa que ele não aprovasse, interessou-se pelo título e passou a ler o livro enquanto o jovem Léon trabalhava. E durante muitos dias, O livro dos espíritos era lido durante o dia pela mãe e à noite pelo filho.
Diz Raul que um dia Léon se encheu de coragem e resolveu contar à mãe sobre a doutrina que o encantara. Ele teria dito:
– Mãe, preciso confessar-lhe.
Ao que ela redarguiu, serena:
– Diga, meu filho.
Ele, temendo uma reação lhe disse diretamente:
– Tornei-me espírita!
Para a surpresa do jovem francês, a mãe lhe respondeu:
– Eu também!
Como bibliotecário voluntário, apresentar Denis é falar de um universo à parte na literatura espírita. Juntamente com Gabriel Delanne, Léon trouxe à luz o pensamento de Allan Kardec, vinte anos após sua desencarnação.
Léon fez também a interlocução com os autores de sua época, muito usualmente adotando um texto que era dissertativo, mas “temperado” com imagens poéticas.
Não pretendo apresentar o conjunto dos livros de Denis, por correr o risco de não conseguir ser justo com o autor em tão pouco espaço. Então, gostaria de tecer comentários sobre o livro O porquê da vida (1885) publicado pela Federação Espírita Brasileira. Débora Z. Vitorino, em sua biografia de Léon Denis, nos informa que teve várias edições na França e na Bélgica, e que trata do problema da existência “de forma fácil e agradável”. A tradução foi feita por João Lourenço de Souza, que segundo Canuto Abreu (2) foi tradutor e organizou a editora e a livraria da FEB.
De fato, a leitura constitui-se em uma espécie de diálogo do autor com o leitor, o que a torna agradável de se ler, ao mesmo tempo, é bastante profunda. Da primeira vez que o li, era muito jovem, sem qualquer conhecimento sistemático de filosofia. Relendo o livro para escrever esse artigo, fiquei bastante surpreso com o alcance do livro de Denis, porque como todos o sabem, ele é autodidata.
Além do texto original do livro, a publicação da Federação Espírita Brasileira incluiu a correspondência de Lavater (teólogo suíço, pastor, autor da fisiognomia e mesmerista) sem maiores explicações. Não nos parece ser produção de Léon Denis, nem ter sido comentada por ele. João Lourenço inseriu também o ensaio A reencarnação e a Igreja Católica (também publicado pela CELD com o título O espiritismo e o clero católico (1923) e a novela Giovana (data desconhecida), ambos escritos pelo discípulo de Kardec.
O porquê da vida começa com uma avaliação da época que Denis vivia. Ele constata que o materialismo, especialmente na França, era cada vez mais influente na sociedade. No livro Socialismo e espiritismo (1927) ele se queixaria dos socialistas se tornarem cada vez mais materialistas (3), e critica o conceito de “luta de classes” argumentando a partir da mobilidade social dos operários e da burguesia (que ele parece empregar como uma espécie de mistura de classe média e classes altas em um regime republicano e não com o sentido de classe dominante) que se conseguiu a partir da revolução francesa. Outra mudança foi a escola pública francesa (4) que no final do na década de 1880 promoveu a laicização do ensino. Denis aponta o objetivo dos reformadores: a “solidariedade pela difusão da educação” e a “participação de todos na obra comum”. Ele mostra que aos poucos o idealismo de Paul Bert foi abandonado e o ensino se tornou materialista, que o autor condena por “desenvolver o sentimento pessoal”, ou seja, um individualismo que “não faz senão superexcitar os apetites, os desejos de gozos e se traduz por um egoísmo desenfreado”.
O porquê da vida foi escrito no início dessas transformações e tem por finalidade explicar de forma simples, porém fundamentada, a contribuição das ideias espíritas para a questão da existência.
Sua primeira questão acompanha Kardec: a liberdade face à justiça, que ele condiciona ao conhecimento das leis morais. Denis dialoga com o idealismo filosófico, ao dizer “conforme for o ideal, assim é o homem”(5). Com isso ele afirma que o homem se constrói a partir do seu pensamento, suas intenções, seus esforços. Da esfera individual ele passa à esfera coletiva, dizendo que as coletividades se formam a partir de suas concepções de mundo e da vida, porque elas mostram “o caminho a seguir”.
Ele parte da dualidade espírito – matéria, afirmando o primado do espírito. E vai dizer que existem forças, “potências”, que não podem ser consideradas materiais. É talvez o primeiro rascunho da parte três do livro O problema do ser, do destino e da dor, no qual ele irá dedicar-se a temas entre a psicologia e o espiritualismo, como a vontade, a consciência, o livre-arbítrio, o pensamento, o caráter (e sua reforma), o amor e a dor, que merece uma análise mais detida em outro texto.
Do espírito, Denis se dirige a Deus, “o foco de que emana toda ideia de justiça, de solidariedade, de amor, “o alvo comum para o qual todos os seres se encaminham” (6) (o grifo é meu), ou seja, os seres em progresso buscam a justiça, o amor, que se compreendem a partir da sua mais alta expressão, a partir do divino.
Como, então, chegar a esse futuro, já que vivemos em um mundo de sofrimento, desigualdades, ignorância no qual inúmeros de nossos irmãos em Deus desencarnarão sem compreender sua predestinação? Nesse momento Denis desenvolve a questão das vidas sucessivas, chave importante para a compreensão da justiça divina, capaz de apontar para o progresso incessante dos homens e mulheres. Ele elabora a teleologia do homem com uma frase de impacto: “Engrandecer-te de vida em vida, esclarecer-te pelo estudo, purificar-te pela dor, adquirir uma ciência cada vez mais vasta, qualidades sempre mais nobres: eis o que te está reservado” (7).
Essa elaboração lógica e filha da filosofia idealista, além de presente nas contribuições de gênios da humanidade, contudo, foi amplamente questionada por gerações anteriores e pelos contemporâneos de Denis, o que ele não ignora. O que poderia provar que a vida é realmente assim? Qual a prova do ser-espírito e de seu futuro? Por que iniciar esse trabalho de transformação interior? Em busca da solução dessas questões ele escreve o capítulo Provas experimentais, no qual irá apresentar muito sucintamente as transformações da França de sua época com relação à pesquisa experimental da mediunidade. Concluindo, a comunicabilidade dos espíritos, e o entendimento do seu relato sobre a vida após a morte, é uma evidência do progresso do homem.
O porquê da vida é uma espécie de leitura introdutória de Denis, e facilita a compreensão de outros livros nos quais ele irá desenvolver de forma mais extensa suas ideias nucleares. Seu primeiro livro publicado, O progresso (1880), fruto de uma conferência, antecipa o emprego desse conceito em O porquê da vida. O livro mais próximo deste último é Depois da Morte (1890) , cuja estrutura se assemelha muito ao primeiro, mas mais aprofundado no pensamento de Kardec e nos conceitos espíritas. Ainda ligado a essa estrutura, ele escreveu um livro em forma de perguntas e respostas: Síntese doutrinária e prática do espiritismo (1920), ao qual acrescenta preces. A questão de Deus foi desenvolvida em O Grande Enigma (1911). Em O problema do ser, do destino e da dor (1905), ele agrega os estudos da psicologia e das pesquisas psíquicas de seu tempo, e desenvolve, como já dito, as forças ou potências da alma. A parte do espiritismo experimental e de sua prática é desenvolvida no livro No invisível (1903), O além e a sobrevivência do ser (1913) e Espíritos e médiuns (1921). Dos livros que fogem à temática de O porquê da dor, temos Cristianismo e espiritismo (1898), Joana D’Arc, médium (1912), O espiritismo na arte (compilação de publicações feitas sobre o tema em 1922), O mundo invisível e a guerra (1919), O gênio céltico e o mundo invisível (1927) e Socialismo e espiritismo (1927).
Jáder Sampaio
Referências:
- Regnault, Henri. Léon Denis e a experiência espírita. (s.n.) 1928;
- Abreu, Canuto. Bezerra de Menezes: subsídios para a história do espiritismo. 4 ed. São Paulo: FEESP, 1991;
- Denis, Léon. Socialismo e espiritismo. Matão-SP: O Clarim, 1982. p. 38-42;
- Denis, Léon. Socialismo e espiritismo. Matão-SP: O Clarim, 1982. p. 49;
- Denis, Léon. O porquê da vida. 12 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981. p. 17;
- Denis, Léon. O porquê da vida. 12 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981; e
- Denis, Léon. O porquê da vida. 12 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981.
Dados bibliográficos complementares:
Abreu, Canuto. Bezerra de Menezes: subsídios para a história do espiritismo. 4 ed. São Paulo: FEESP, 1991.
Baumard, Claire. Léon Denis na intimidade. Matão-SP: O Clarim, 1982 [Tradução e notas de Wallace Leal V. Rodrigues]
Denis, Léon. Socialismo e espiritismo. Matão-SP: O Clarim, 1982.
Denis, Léon. O porquê da vida. 12 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981.
Luce, Gaston. Léon Denis: vida e obra. 2 ed. São Paulo: Edicel, 1978.
Regnault, Henri. Léon Denis e a experiência espírita. (s.n.) 1928. Disponível em https://www.autoresespiritasclassicos.com/ Acesso em 19/02/2021.
Vitorino, Débora Z. Léon Denis. In: Sampaio, Jáder R. (org.) Coletânea de estudos espíritas. Belo Horizonte: AECX, 1997.
Veja também
Ver mais
Família em vulnerabilidade social e movimentos sociais, uma visão da atualidade com Reinaldo Pontes | Federação Espírita Paraibana

A dinâmica e a progressividade das revelações espíritas

