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Estudo de casos de estados de alma

agosto 14, 2023

Allan Kardec viveu em período de avanços culturais e científicos, entremeados com problemas políticos e profundos impasses no âmbito da religião. Nesse complexo contexto e com seu preparo intelectual cumpriu o papel de elaborador humano de um conjunto sistematizado de informações espirituais originando o Espiritismo.

Sabe-se que as obras do Codificador surgem no momento de um grande esforço espiritual para se restabelecer a fé, e, em bases racionais. Entre as obras básicas, há 158 anos surgia O céu e o inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. Na edição de julho de 1865 a Revista espírita anunciava a disponibilidade para o dia 1o/08/1865, de O céu e o inferno, a nova obra de Allan Kardec.1

Essa Revista informa no mês seguinte em “notícias bibliográficas”: “O título desta obra indica claramente o seu objetivo. Nela reunimos todos os elementos destinados a esclarecer o homem quanto ao seu destino. Como em nossas publicações anteriores sobre a Doutrina Espírita, nada colocamos neste livro que seja produto de um sistema preconcebido ou de uma concepção pessoal, que, aliás, não teria nenhuma autoridade. Tudo foi deduzido da observação e da concordância dos fatos”.1

Essa frase também constava no Prefácio da obra por ocasião do seu lançamento, que ficou ausente na 4a edição francesa (1869) e em muitas traduções.2

Em novembro de 1865, a Revista espírita contém o seguinte comentário: “Quem quer que tenha lido e meditado nossa obra O céu e o inferno segundo o Espiritismo e, sobretudo, o capítulo sobre o temor da morte, compreenderá a força moral que os espíritas haurem em sua crença, diante do flagelo que dizima as populações.”¹

Na 1a Parte de O céu e o inferno dispõe-se do exame comparado de diversas crenças sobre: o porvir e o nada; temor da morte; céu; inferno; purgatório; as penas futuras segundo o Espiritismo; anjos; demônios; intervenção dos demônios nas modernas manifestações. Dentro do capítulo “as penas futuras segundo o Espiritismo”, há comentários de fundamental importância sobre o “código penal da vida futura”. Kardec pondera que não “formula um código de fantasia no que respeita ao futuro da alma”, mas deduz a partir “das observações de fatos”².

Evidentemente que dentro dessa visão naufragam as teorias das penas eternas e de seus desdobramentos com a adoção de penitências, indulgências e dos complexos de culpa. Para fundamentar a nova visão, na 2a Parte, Kardec analisa estados de alma com base nas comunicações de espíritos desencarnados. Há registros de numerosos casos de manifestações espirituais que sustentam a teoria. Kardec detalha algumas circunstâncias, lembrando que “a certeza da vida futura não exclui as apreensões quanto à passagem desta para a outra vida”.

Nesse sentido, O céu e o inferno é um livro histórico e inédito, registrando o estudo pioneiro de manifestações espirituais e da identidade do comunicante, cotejando-as com dados sobre a existência do manifestante, enquanto encarnado. A coerência das mensagens espirituais, com diversidade dos tempos e dos lugares onde foram obtidas, é importante e robustecem a linha mestra da nova visão sobre imortalidade da alma.

Kardec, de acordo com suas características, sem pieguismo e com método de estudo, analisa as manifestações dentro de uma classificação que estabeleceu de: Espíritos felizes; Espíritos em condições medianas; Espíritos sofredores; Suicidas; Criminosos arrependidos; Espíritos endurecidos; Expiações terrestres.

Eis algumas ilustrações que selecionamos.

Sobre espíritos felizes: Sanson, membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, informa que “ao fim de oito horas” após a morte do corpo é que recobrou “a lucidez das ideias”. Sobre a manifestação da viúva Foulon – que o Codificador conheceu quando encarnada na cidade litorânea de Saint Adresse, momentos em que ele redigia O evangelho segundo o espiritismo” naquele balneário -, Kardec considera que ela sentiu: “[…] como libertação que lhe era das cadeias terrestres, ao mesmo tempo que lhe abria as portas da vida espiritual, com a qual se identificara no estudo do Espiritismo”.

Entre os espíritos considerados “sofredores”, há o relato de Novel: “Meu espírito, preso ao corpo por elos materiais, teve grande dificuldade em desembaraçar-se – o que já foi, por si, uma rude angústia”.

As manifestações dos suicidas são dolorosas. Um conhecido ateu, homem instruído, chamado M. J.-B. D., fez seu depoimento como espírito desencarnado: “Sofro. Sou um réprobo. […] Sofro pelo constrangimento em que estou de crer em tudo quanto negava. Meu Espírito está como num braseiro, horrivelmente atormentado”.

Como depoimento de espírito arrependido, focalizamos o caso do padre Verger, que assassinou o arcebispo de Paris em janeiro de 1857, foi rapidamente julgado e sofreu a pena de morte. O espírito declarou: “[…] Fiz mal em matar, mas isso fui levado pelo meu caráter, que não podia tolerar humilhações… […] lamento o que fiz e isso me faz sofrer. […] Sou punido porque tenho consciência de minha falta, e para ela peço perdão a Deus”. Na manifestação, o espírito mostra-se arrependido e disposto e tem consciência que poderá reparar suas faltas em uma nova oportunidade reencarnatória.

Esses dois últimos casos deixam claro o respeito que deve ser mantido com a vida corpórea.

O estudo de casos sobre dezenas de manifestações espirituais faz de O céu e o inferno um livro de comprovações, contribuindo para a identificação dos espíritos comunicantes e oferecendo evidências importantes para a compreensão da imortalidade da alma. Os diferentes estados de alma identificados por Kardec, se enquadram no tradicional conceito de que “a Natureza não dá saltos”, pois o raciocínio é válido num continuum de espírito encarnado/processo de desencarnação/espírito desencarnado. O importante é o estado de alma e o nível e profundidade de como “a lei divina se encontra escrita na consciência” de cada um.

O espírito Emmanuel celebrou o Centenário das obras de Kardec, elaborando pela psicografia de Chico Xavier oportunas análises. O céu e o inferno, foi homenageado e focalizado pelo espírito Emmanuel, com a obra Justiça divina (1962), realçando: “[…] o serviço interpretativo da palavra libertadora de Allan Kardec” e detalha ensinos do Mestre: “[…] ensinou-nos Jesus, claramente: ‘O Reino de Deus está dentro de vós”. Emmanuel traça orientações para a vida cotidiana, com base nesse livro básico, e pondera: “[…] o céu começará sempre em nós mesmos e o inferno tem o tamanho da rebeldia de cada um”.

As obras de Kardec devem merecer mais estudo e divulgação cotidianamente na seara espírita, com destaque para aquele que tem sido muito esquecido: O céu e o inferno!

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Referências:
1) Kardec, Allan. Revista espírita. Ano 8. Julho, setembro, novembro de 1865. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. Rio de Janeiro: FEB. 2015;
2) Kardec, Allan. O céu e o inferno. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. 1.ed. Rio de Janeiro: FEB. 2009;
3) Xavier, Francisco Cândido. Justiça divina. 13. ed. Pelo espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB. 2008; e
Transcrito – Artigo do autor, publicado em Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCVIII. N.7. Agosto de 2023.

Nota do Editor:
Imagem ilustrativa e em destaque disponível em livro.
Acesso em: 13/08/2023.

Antonio Cesar Perri de Carvalho
Antonio Cesar Perri de Carvalho

Ex-presidente da Federação Espírita Brasileira (interino de 5/2012 a 3/2013 e efetivo de 3/2013 a 3/2015); membro da Comissão Executiva e Primeiro Secretário do Conselho Espírita Internacional; Membro do Grupo de Estudos Espíritas Chico Xavier.

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