
O esquecimento das vidas passadas
No imaginário popular, muitas pessoas gostariam de remover o véu do esquecimento que cobre o seu passado espiritual, para ter acesso às vidas pregressas e aos acontecimentos que nelas ocorreram, compreendendo os desdobramentos na atual existência. Acreditam de forma romântica e interesseira, que o sucesso na atual encarnação, esteja relacionado à compreensão dos erros das últimas existências.
No O Livro dos Espíritos, podemos ver que o esquecimento do passado é uma necessidade para a evolução do espírito, segundo orientação recebida por Kardec do Espírito da Verdade:
Por que o Espírito encarnado perde a lembrança do seu passado?
“O homem não pode e nem deve saber tudo. Deus, em sua sabedoria, quer que seja assim. Sem o véu que lhe encobre certas coisas, o homem ficaria ofuscado, como aquele que passa sem transição da escuridão para a claridade. Pelo esquecimento do passado ele é mais senhor de si mesmo”. (1)
Seria muita ingenuidade da nossa parte alimentar essa pretensão, pois mesmo tendo a revelação dos fatos ocorridos, não teríamos a garantia de uma maturidade para conseguir modificar nossa atual conduta, pois a essência do que fomos, ainda é muito presente em nosso mundo íntimo.
Para os antigos gregos, o esquecimento por completo das vidas anteriores é quase impossível, pois a história de cada um faz parte da sua essência e dessa forma trazemos no amago âmago as reminiscências das lembranças adormecidas do pretérito, que às vezes despertam com objetivo de lembrar que temos por obrigação reparar nossos erros em uma nova existência.
No imaginário popular, gostaríamos de ter o pleno acesso às lembranças do passado sem nenhum tipo de ressalva, já que a curiosidade na condição de vigília leva o encarnado em alguns casos a cometer certos abusos e imprudências. E por conta dessa questão, é que existem desequilíbrios emocionais que devem ficar ocultos, pois são responsáveis por muitas doenças. Em alguns casos, quanto menos soubermos, melhor.
Na avaliação do psiquiatra e espírita Jorge Andréa, poderia atrapalhar a reencarnação de muitos encarnados, uma vez que nem todos amadurecem moralmente ao mesmo tempo, para lidar com equilíbrio e prudência às revelações das suas encarnações mais remotas, assim como as doenças que se desdobram a partir desses desequilíbrios emocionais.
Jorge Andréa nos deixou um artigo para reflexão, quando escreveu:
“Muitas distonias orgânicas nascem em correntes mentais, sem que o indivíduo conheça o mecanismo do problema. Em outras palavras, esse grupo de moléstias independe da vontade de quem sofre. A maioria desses sintomas estará enquadrado naquilo que hoje denominamos doença psicossomática”. (2)
Se as doenças pré-existentes, assim como as Dores da Alma, refletem os efeitos colaterais ou a reverberação deletéria das nossas atitudes equivocadas, o ideal seria não tentar saber a origem do problema.
Chico Xavier era constantemente advertido por Emmanuel, que não revelasse a nenhuma das pessoas, detalhes das suas antigas encarnações. Pelo que se sabe Chico raramente quebrava o protocolo. Acredita-se que ocorreram apenas casos muito isolados e reservados, que Chico comentava discretamente para a revelação não interferir na vida do encarnado.
Se desejarmos saber um pouco mais das nossas antigas encarnações basta observar nossas inclinações ou aptidões e já teremos uma forte indicação do tipo de vida que tivemos.
Segundo nos contam os espíritos em obras, como a série de André Luiz, “A Vida no Mundo Espiritual”, nem todos os problemas que precisamos superar tem origem em vidas passadas, algumas faltas podem ter sido contraídas na atual existência por abusos cometidos de forma imprudente e até mesmo pueril! Certas revelações poderiam desencadear um processo de perturbação, levando em alguns casos até mesmo a uma obsessão, por isso a necessidade do esquecimento.
Os Espíritos André Luiz e Hilário no livro Ação e Reação, tiveram a oportunidade de ouvir o diretor Druso explicar a relação entre as enfermidades mentais no plano físico e os sentimentos adoecidos não resolvidos na última encarnação:
“O pretérito fala em nós com gritos de credor exigente, amontoando sobre as nossas cabeças os frutos amargos da plantação que fizemos… Daí os desajustes e enfermidades que nos assaltam a mente, desarticulando-nos os veículos de manifestação. Admitíamos que a transição do sepulcro fosse lavagem miraculosa, liberando-nos o Espírito, mas ressuscitamos no corpo sutil de agora com os males que alimentamos em nosso ser. Nossas ligações com a retaguarda, por essa razão, continuam vivas”. (3)
Fazendo uma análise dessa narrativa podemos perceber que o processo de reparação é muito individual de cada um, pois desconhecemos as vidas anteriores dos companheiros que nos cercam, assim como as nossas vidas passadas.
O processo de reeducação do espírito não se limita a uma única encarnação, porém quando temos a oportunidade de iniciá-lo, passamos a ter um compromisso redobrado, pois não somos mais meros espectadores da realidade e sim agentes de nossa transformação pessoal e dos outros que nos cercam.
Emmanuel procura nos estimular com suas palavras, quando nos diz:
“Lembra-te de que o ano em retorno é novo dia a convocar-te para execução de velhas promessas, que ainda não tiveste a coragem de cumprir.
Se a tristeza te requisita, esquece-a e procura a alegria serena da consciência feliz no dever bem cumprido.
Recorda que há mais ignorância que maldade, em torno do teu destino.
Cultiva o bom ânimo com os que te visitam, dominados pelo frio do desalento ou da indiferença”. (4)
Éder Andrade
Referências:
(1) Kardec, Allan; Livro dos Espíritos; 2ª Parte: Retorno à vida corporal: Esquecimento do passado – p. 392; FEB;
(2) Andréa, Jorge; Psicologia Espírita – v.1 – Em busca do equilíbrio; Ed. F.V. Lorenz;
(3) Xavier, Francisco Cândido; Ação e Reação (1957); Cap. 2 – Comentários do Instrutor; FEB.
(4) Xavier, Francisco Cândido; Vida e Caminho (1994); Carta de Ano Novo (Emmanuel); Ed. GEEM.
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