
O desafio da desobsessão no século XXI
A revolução tecnológica e a conexão permanente encurtam distâncias e aceleram o progresso material, ao mesmo tempo em que dão fôlego novo a um desafio muito antigo: a obsessão espiritual. O que mudou não foi a natureza do problema, mas a escala e a velocidade com que ele agora se propaga.
Allan Kardec definiu esse fenômeno em O Livro dos Médiuns (capítulo XXIII, item 237) como o domínio que os Espíritos (inferiores) exercem sobre certas pessoas. O Codificador esclarece que essa influência nunca é mecânica nem de mão única, dependendo de uma sintonia. Existe algo na mente encarnada que responde, que vibra na mesma faixa da mente do desencarnado, e é essa reciprocidade que abre a porta. Portanto, não há obsessão sem afinidade.
No século XXI, o ambiente virtual se tornou o novo palco dessas trocas psíquicas. Diante das telas, passamos horas expostos a estímulos e emoções alheias, e é natural que esse espaço se converta também num campo de influências espirituais. Por isso a realidade digital exige de quem pratica a Doutrina Espírita uma atenção redobrada com a higiene mental e com a vigilância evangélica.
Para entender esse processo, convém recorrer aos princípios de uma verdadeira física do espírito. Em Obras Póstumas, no estudo “Fotografia e telegrafia do pensamento”, Kardec ensina que o pensamento não é algo abstrato, sendo uma emissão real da alma que se propaga pelo fluido universal, o elemento sutil que serve de veículo às ações espirituais, servindo os fluidos de veículo ao pensamento assim como o ar serve de veículo ao som. Esse mesmo princípio é desenvolvido de modo mais sistemático em A Gênese (capítulo XIV – Os Fluidos, itens 18 a 21), informando-se que os pensamentos se cruzam, atraem-se e se repelem no espaço, e desse movimento resulta uma atmosfera fluídica particular em torno de cada pessoa, uma espécie de envoltório próprio, renovado pela qualidade daquilo que ela pensa e sente.
Isso esclarece o que acontece nas redes sociais. Não se entra ali num espaço neutro, mas num ecossistema construído para prender a atenção o maior tempo possível, e poucas coisas prendem mais do que a vaidade ferida, o melindre e a disputa de ideias.
Quando a pessoa cede a esses impulsos, alimenta a discussão e busca aprovação a qualquer custo, passando a emitir fluidos pesados, do mesmo teor daquilo que sente. Pela lei da sintonia, essas vibrações atraem inteligências desencarnadas da mesma faixa moral, e a tela do celular acaba por se converter num ponto de contato para uma troca mental prejudicial.
Por isso, a obsessão dos nossos dias raramente assume as formas graves e espetaculares do século XIX. Ela costuma se apresentar de modo discreto, sob a forma de obsessão simples e, sobretudo, de fascinação, descritas em O Livro dos Médiuns (capítulo XXIII, itens 238 a 240).
No entanto, não acreditemos que a fascinação é uma forma “amena” de obsessão. Pelo contrário, é a mais perigosa, justamente por ser silenciosa: espíritos pseudossábios e zombeteiros aproveitam a necessidade de aprovação para soprar o orgulho na mente desatenta, até que a pessoa acredite, com total convicção, que suas opiniões agressivas e intolerantes são acertadas. Segundo o professor de Lyon, na fascinação “… o Espírito conduz o indivíduo de quem ele chegou a apoderar-se, como faria com um cego, e pode levá-lo a aceitar as doutrinas mais estranhas, as teorias mais falsas, como se fossem a única expressão da verdade. Ainda mais, pode levá-lo a situações ridículas, comprometedoras e até perigosas” (O Livro dos Médiuns, capítulo XXIII, item 239).
O resultado é que o senso moral fica, temporariamente, obscurecido. Daí nascem sintomas conhecidos do homem moderno, como a ansiedade crônica e a sensação de vazio. E isso se mostra, em boa parte, como reflexo da contaminação da atmosfera psíquica do lar e do próprio perispírito, o corpo sutil que envolve o Espírito.
As obras da Codificação, porém, oferecem a terapêutica exata. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especificamente na seção “Preces pelos obsidiados” (itens 81 a 84) do capítulo XXVIII, Kardec ensina que a prece sincera atrai o socorro dos bons Espíritos. Adverte, contudo, que a prece isolada não basta se a pessoa mantiver abertas as portas da própria mente. A desobsessão verdadeira exige o esforço individual e intransferível da reforma íntima, capaz de modificar a natureza dos fluidos que emite. Afinal, os Espíritos imperfeitos só permanecem onde encontram eco para as próprias imperfeições e, quando o encarnado combate em si o orgulho, a inveja e a maledicência, desfaz um a um os fios que o ligavam às sombras.
A Doutrina destaca ainda a defesa ativa que nasce do próprio pensamento. Conforme A Gênese (capítulo XIV, itens 16, 20 e 21), o cultivo constante de pensamentos elevados leva o Espírito a emitir e a impregnar-se de fluidos mais puros, de amor e de paz.
Ao voltar a mente para o bem, a pessoa satura o próprio perispírito de fluidos saudáveis, que funcionam como uma couraça magnética protetora. O Espírito obsessor que tenta se aproximar de uma mente assim blindada encontra vibração incompatível e é obrigado a afastar-se. Com o amparo dos mentores, poderia então iniciar seu próprio esclarecimento.
Por fim, é preciso dizer que novamente no já referido capítulo XIV de A Gênese, Kardec formula a lei que sustenta tudo isso, já que os fluidos se combinam pela semelhança de suas naturezas e os dessemelhantes se repelem, havendo entre os bons e os maus a mesma incompatibilidade que existe entre a água e o óleo. Disso decorre que a desobsessão coletiva ou familiar passa pela mudança do ambiente mental em que se vive.
Diante do que foi exposto, escolher com cuidado o que se assiste e as conversas das quais se participa nas plataformas digitais não é preciosismo, mas legítima higiene da mente. Saber se desligar do ruído virtual para silenciar a alma e buscar a comunhão com Deus se tornou necessidade urgente. O uso consciente das telas, unido à vigilância sobre os próprios sentimentos, é o caminho seguro proposto pela Codificação.
Assim, o lema “vigiai e orai” permanece como a “vacina” indispensável – vigiar para não deixar entrar, orar para atrair o bem – em favor da saúde da alma e da verdadeira liberdade espiritual.
Renato Confolonieri
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