
Reencarnação, uma ideia libertadora (Parte 1 de 2)
A – RELIGIÃO E DOMINAÇÃO
Durante milênios infindos, o homem tem sua relação com Deus mediada por estruturas sociais de cunho dominador. Estados teocráticos, onde o poder institucional sempre se confundiu com os ministros religiosos. A esperança das pessoas em uma vida melhor no futuro aproveitada na famosa “Exploração do homem pelo homem”, onde talvez por isso Karl Marx tenha citado a religião como o “ópio do povo”.
A doutrina das penas eternas é o arcabouço ideológico que patrocina esta dominação. Vivemos ainda sob o espectro de penas eternas, em um modelo importado do paganismo, onde o céu encontra-se no alto, como o Olimpo dos gregos. O inferno nos lugares baixos, como o Deus Hades da mitologia. Um fogo que arde e não queima, associado por muitos ao enxofre na crendice popular. Conceitos absolutos de destino após a morte, remediados por subterfúgios teológicos, como o limbo e o purgatório, tão artificiais como a Santíssima Trindade e o conceito de Espírito Santo, estranhos ao dito nos evangelhos.
Uma palavra perigosa permeia toda esta relação entre fiel e religião que é o individualista conceito da salvação. Este conceito, embutido do medo do que nos espera na vida futura, faz do inferno e seus habitantes mais famosos e propalados nas histórias e filmes, para assustar as almas, como assustam crianças para não mexer no pote de mel. Um Deus bárbaro e impiedoso, imagem e semelhança dos seres que são valorizados no mundo, condicionado a preces e favores intermediados para libertar as almas do suplício eterno.
Hoje o homem conhece o átomo, vislumbra a grandeza do Universo, conhecendo leis e forças que impulsionam o mundo. Mas, acendemos o écran da televisão e vislumbramos espetáculos de crenças no Deus dos Exércitos, com um inferno ardente consumindo uma leva de infiéis. O rompimento destes paradigmas se faz de forma lenta e desigual, não sendo patrocinada por poderes que se beneficiam da subjugação das ideias de penas eternas.
B – REENCARNAÇÃO, UMA IDEIA LIBERTADORA
Mas, desde o início da civilização, caminha pelo mundo a libertadora ideia das vidas sucessivas. A reencarnação, crença comum entre os gregos, os egípcios, os Vedas, citada textualmente nos evangelhos por Jesus e defendida por espíritas, Hinduístas e Budistas, traz no seu escopo conceitos que permitem classificá-la como uma ideia libertadora. Libertadora, pois permite ao espírito caminhar por si só, sem grilhões que o condenem. Tais conceitos são:
Conceito concreto de Vida após a morte: A doutrina da Reencarnação desmistifica ideias de um céu de contemplação ou a espera de um dia do Juízo, construindo um panorama concreto da vida após a morte, mostrando que como no mundo de cá (ou seria o contrário), a vida é eterno movimento e transformação.
Reconhecimento da responsabilidade individual: Ao invés de terceirizar as responsabilidades de nossas mazelas para seres malignos, a ideia da Reencarnação avoca para o espírito encarnado esta responsabilidade pela sua salvação, fornecendo-lhe os meios para tal empreitada. Ou seja, ao invés de transferir o fardo da vida para outros à vista, a Reencarnação traz, de forma justa, esta responsabilidade para a criatura humana, a prazo.
Salvação pela ação individual do espírito: Uma das questões dialéticas da vida sucessiva, desvendada de forma brilhante na doutrina espírita é que a “salvação”, ou seja, o progresso, se dá pelo esforço individual do espírito, que só tem sentido no coletivo. Nada vale nos isolarmos na montanha para a melhoria, pois o progresso ocorre na atuação no palco do mundo, no concreto do cotidiano, nos burilando com os nossos pares.
Eliminação de intermediários ou vinculações segmentárias: A Reencarnação elimina caminhos exclusivos ou intermediários para o progresso, libertando o homem da dominação da consciência, do atrelamento a grupos ou nações para seu encontro com Deus. O seu progresso está subordinado ao seu burilamento em vidas sucessivas, onde seu esforço construirá um caminho para o crescimento.
Isenção de ameaças e imagem de um Deus Justo e Bom: Demonstrando que todas as dores do mundo têm sua causa, isenta a criatura humana de ameaças amedrontadoras quanto ao futuro, que será construído no agora pelo espírito, colhendo o que plantou e semeando o seu futuro. Sem medo, cai a dominação. Reforça também a ideia do Deus Justo e Bom e Pai amantíssimo. Jesus, quando fala da Parábola do Filho Pródigo no evangelho fala muito mais do que o perdão dos pais pelos filhos e sim sobre a grandeza da filosofia da vida, onde o pai sempre deixa uma porta para o retorno de seu filho, consubstanciando bem a ideia da Reencarnação.
[Leia a continuação deste Artigo no próximo sábado…]
Marcus Vinicius de Azevedo Braga
Referências Bibliográficas:
(1) Kardec, Allan – O Evangelho segundo o Espiritismo, FEB;
(2) Kardec, Allan – O Céu e o Inferno, FEB;
(3) Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, FEB;
(4) Denis, Leon – O Porquê da vida, FEB;
(5) Dellane, Gabriel – A reencarnação, FEB.
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