
Tutela eleitoral de espíritas?
Periodicamente ressurgem, com certa previsibilidade, aqueles que se consideram iluminados para orientar, sugerir, induzir ou discretamente constranger em quem o espírita deve ou não votar. A iniciativa costuma vir revestida de boas intenções, linguagem edificante e apelos morais elevados. Falta apenas um detalhe elementar: coerência com o próprio princípio de liberdade de consciência que sustenta o Espiritismo.
A Doutrina Espírita não instituiu clero, hierarquia de mando nem diretório eleitoral. Não há procuração espiritual que autorize terceiros a substituir o juízo individual. O espírita é convidado ao estudo, à reflexão e à responsabilidade pessoal por seus atos. Isso inclui, naturalmente, suas escolhas políticas. Pretender uniformizar votos em nome de uma suposta consistência doutrinária revela menos zelo moral e mais inclinação ao controle.
Curioso é que tal postura frequentemente se apresenta como defesa do bem. O argumento implícito parece ser o seguinte: se o eleitor não votar como eu considero correto, então está moralmente equivocado. A conclusão prática dispensa comentários. Trata-se de uma forma de substituir a consciência alheia pela própria convicção. Nada mais distante do exame racional proposto pela Doutrina.
Há também um equívoco conceitual recorrente. Confunde-se orientação moral geral com prescrição política específica. O Espiritismo propõe valores universais como caridade, responsabilidade e progresso moral. Não fornece, contudo, listas eleitorais, slogans partidários ou manuais de voto correto. A passagem do princípio ético à escolha concreta pertence ao campo da liberdade individual. É exatamente aí que alguns parecem sentir grave desconforto.
O fenômeno lembra antigas práticas de voto de cabresto, agora com verniz espiritualizado. Antes, a pressão vinha do poder econômico ou coronelista. Hoje, por vezes, tenta vir da autoridade moral autoatribuída. A embalagem mudou. A lógica de tutela permanece. O eleitor continua sendo tratado como incapaz de discernir por si mesmo. Apenas trocaram o chicote visível por uma recomendação piedosa.
Outro aspecto digno de nota é a seletividade indignada. Quando o voto alheio coincide com a preferência do orientador, celebra-se a consciência esclarecida e o progresso. Quando diverge, denuncia-se ignorância, alienação e falta de sensibilidade social. A liberdade e tolerância, nesse modelo, são reconhecidas sob condição de concordância prévia.
Convém recordar o óbvio. Casas espíritas não são comitês eleitorais. Reuniões doutrinárias não são palanques. Médiuns não são cabos eleitorais. Misturar esses planos empobrece o ambiente espiritual, reduz a reflexão e introduz divisões desnecessárias. O resultado raramente é elevação moral. Geralmente é apenas mais ruído e divisão.
Isso não significa indiferença ética diante da vida pública. O espírita, como qualquer cidadão, pode e deve refletir sobre justiça, responsabilidade social e consequências coletivas das decisões políticas. O que não pode é transferir essa responsabilidade a um tutor ideológico travestido de guia moral. A maturidade começa exatamente quando termina a dependência intelectual.
No fundo, a pretensão de dirigir o voto alheio revela uma contradição silenciosa. Fala-se em evolução do Espírito, mas desconfia-se da capacidade de escolha do próximo. Exalta-se a consciência, mas tenta-se administrá-la. Defende-se liberdade, mas apenas até o ponto em que ela diverge.
Talvez fosse mais simples admitir que divergências políticas entre espíritas são naturais. A Doutrina não promete uniformidade de opiniões, e sim aperfeiçoamento moral individual com reflexo coletivo. Esperar unanimidade eleitoral é desconhecer a própria diversidade humana que o Espiritismo admite.
Assim, a solução é menos grandiosa do que alguns imaginam. Basta respeitar a consciência alheia. Cada espírita estuda, pondera e vota conforme seu entendimento. Sem cabresto, sem tutela e sem necessidade de autorização moral externa. Liberdade verdadeira dispensa intermediários e, principalmente, dispensa os que insistem em administrá-la.
Marco Milani
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