
O retrato da vida
Hoje – plantação, segundo a nossa vontade; amanhã – seara, conforme a lei
“A morte é a desveladora da vida”.
Manoel Philomeno de Miranda.
Uma conduta essencialmente cristã em todas as circunstâncias de nosso dia a dia é que nos alforriará a consciência frente à morte. E falamos tanto da nossa morte quanto às de quaisquer outros. Ali, diante da iniludível realidade, estaremos sendo defrontados por nossas idiossincrasias. Para que não sejam de amarguras os frutos da colheita de nossa existência é que Emmanuel esclarece (1): “depois da morte do corpo, a frase amiga que houvermos proferido no estímulo ao bem será um trecho harmonioso do cântico de nossa felicidade; a opinião caridosa que formulamos, acerca dos outros, converter-se-á em recurso de benignidade da justiça divina, no exame de nossos erros; o pensamento de fraternidade e compreensão, com que nos recordamos do próximo, transformar-se-nos-á em fator de equilíbrio; o gesto de auxílio aos irmãos do nosso caminho oferecer-nos-á sublime colheita de alegria.
Mas, igualmente, além-túmulo, a maledicência a que nos entregamos, será espinheiro a provocar-nos dilacerações e feridas; a nossa indiferença para com as amarguras do próximo aparecerá por geleira, dificultando-nos os passos; a nossa preguiça surgirá como sendo um gerador de penúria espiritual; a nossa crueldade exibir-nos-á, na tela da consciência, a constante repetição dos quadros infelizes de nossos delitos, compelindo-nos à aflitiva demora em escuras paisagens purgatoriais.
A morte é o retrato da vida. A verdade revelará na chapa da memória as imagens que estivermos criando, sustentando e movimentando, no campo da existência.
Se desejamos ventura e tranquilidade, além das fronteiras de cinzas, semeemos, enquanto é tempo, a luz e a sabedoria que pretendemos recolher, nas sendas da ascensão maior.
Hoje – plantação, segundo a nossa vontade; amanhã – seara, conforme a lei.
Se agora cultivamos a sombra, decerto encontraremos – depois – a resposta das trevas. Se, porém, semeamos o amor e a simpatia, onde nos encontramos – indiscutivelmente – mais tarde, penetraremos, ditosos, nos domínios da luz”.
E é o mesmo Emmanuel, profundo conhecedor da personalidade humana, Espírito de escol, portador de larga experiência no trato com as coisas ligadas tanto à matéria perecível quanto às pertinentes aos domínios do imperecível, é que vem alinhar, para nossas meditações, alguns antônimos cristãos, que não nos convém olvidar, já que se tratam de parâmetros/balizas que deverão nortear nossas atitudes, a fim de que nos fixemos no dever a cumprir, e, quando atravessarmos o “Estige, na barca de Caronte”, estaremos imersos em inalienável paz. São os seguintes: Intransigência – tolerância; aspereza – brandura; irritação – serenidade; crítica – benevolência; condenação – bênção; injúria – olvido; ofensa – desculpa; ataque – perdão; censura – auxílio; incompreensão – entendimento; ignorância – instrução; tédio – trabalho; fracasso – recomeço; precipitação – calma; balbúrdia – silêncio; dificuldade – esforço; desalento – esperança; rixa – apaziguamento; ódio – amor.
Sendo batidos numa parte do rosto, disse-nos Jesus que devemos oferecer ao adversário a outra parte (isto é: devemos interdizer a vingança). Norma idêntica é chamada a reger-nos o campo das atitudes. Sempre que desafiados a observar a face da sombra dessa ou daquela questão, no trato da vida, saibamos apresentar, em opostos de luz, também a outra”. Assim, nossa vida, ajustada à vera conduta cristã, ensejar-nos-á a vitória sobre nós mesmos e sobre as viciações do mundo em que vivemos, e penetraremos no pórtico da Eternidade sem os ressaibos das atitudes malsãs que nos atiram aos tenebrosos e escorregadios marnéis das iniquidades; e, finalmente livres do peso excessivo de suas influenciações nefastas, gravitaremos, na paz do Senhor, rumo às (por enquanto inatingíveis) felizes Regiões do Infinito, onde não terão acesso as mazelas físicas e morais com as quais vivemos a braços na Terra.
Advertindo-nos, esclarece Joanna de Ângelis (2): “(…) corpo e alma constituem uma dualidade que, em síntese, são a mesma unidade da vida universal.
Cuida do corpo e atenda a alma. Socorre o organismo, mas medita em torno das necessidades espirituais. O corpo é efeito. A alma é-lhe a causa. A matéria é escola. O ser é o aprendiz que a utiliza. A forma se dilui, mas a essência prossegue…
Vive os impositivos humanos, porém, não descures da tua realidade, aquela que preexiste ao corpo e a ele sobrevive. A vida física é uma experiência no rumo da evolução, enquanto a espiritual é eterna, de onde procedes e para onde retornas. Vive, pois, de tal forma que, atendendo ao corpo, estejas em condição de deixá-lo, pleno e consciente da tua procedência indestrutível, no rumo da felicidade imorredoura”.
Rogério Coelho

Referências:
(1) XAVIER, Francisco Cândido. Mais perto. ed. S. Bernardo do Campo: GEEM, 1983, p. 113-118; e
(2) FRANCO, Divaldo. Alegria de viver. 6.ed. Salvador: LEAL, 2005, cap. 5. p. 38-41.
Nota do editor:
Imagem ilustrativa e em destaque disponível em
<https://www.youtube.com/watch?v=3EcOGAxYPHo>. Trailer oficial do filme Nosso Lar.
Acesso em: 24ABR2020.
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