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Sensação e percepção dos médiuns. Parte 1

agosto 12, 2021

As sensações físicas de fome, dor, medo e sede, ou morais, como raiva, inveja ou mágoa que os Espíritos dizem sentir, para Kardec, são impressões muito fortes que a alma guarda durante a vida corporal e, por isso, na erraticidade conserva a impressão mais ou menos forte dessas sensações.
Numa analogia, essas sensações são como uma tatuagem impressa no Espírito que, sempre ou quase sempre, lembrar-se-á daquela marca.
Tudo isto, aliás, vem ao encontro da ideia de Kardec de que o Espírito é a sede dos sentimentos e emoções. Estudos recentes, já pós Kardec, sobre as lembranças espontâneas que algumas crianças têm de suas existências pregressas corroboram que é no Espírito que estão grafadas as letras do livro das existências.
E essas lembranças são tão intensas, ficam tão “tatuadas” no Espírito que, mesmo vestindo um outro corpo físico existe a lembrança, com detalhes e circunstâncias das mais curiosas no que se refere aos fatos que foram marcantes para o Espírito naquela existência anterior.
Relatam os pesquisadores envolvidos nesta temática que, em geral, uma das recordações mais fortes dessas crianças são, justamente, a dos momentos que envolveram as suas mortes, principalmente se essas mortes foram por causas trágicas.
O corpo já é outro, porém, para além do corpo existe a lembrança que fica como uma parte da biografia da alma.
É como se fosse um livro que, com frequência visitamos para ler, novamente, as páginas que mais foram emocionantes. O livro é o Espírito, as lembranças são as páginas escritas e que ao serem relidas trazem-nos a impressão de estarmos vivenciando novamente aqueles momentos.
Pois bem…
Após recebermos o convite para uma palestra e abordar o tema sensação e percepção dos Espíritos, resolvemos verificar as sensações e percepções não dos Espíritos, mas dos médiuns.
Será que os médiuns sentem as mesmas sensações que os Espíritos dizem sentir ao estabelecerem contato?
Se, por exemplo, o Espírito informa estar com frio, esta sensação pode ser transmitida ao médium?
É um assunto por demais palpitante investigar o que sentem os médiuns. Portanto, fomos a campo perguntar justamente aos médiuns suas sensações e percepções no contato com os Espíritos.
Ficam felizes? Tristes? Angustiados? Sentem dores?
Colhemos, nesta pesquisa com a participação de 66 médiuns, interessantes observações que poderão ensejar estudos um pouco mais parrudos e aprofundados desta pauta.
Deixamos o trabalho com 7 questões para respostas dos médiuns.
A primeira questão foi para verificarmos, de modo geral, quais são as sensações que os médiuns sentem no intercâmbio mediúnico.
Nesta etapa os médiuns informaram sentir sensações das mais diversas. Ao todo foram catalogadas 17 sensações, com destaque para a taquicardia, presente em 9 respostas.
Parece-nos que, não obstante as muitas respostas, há alguns pontos de encontro e que são comuns ao menos à maioria dos médiuns.
Taquicardia – 9 citações
Tensão na nuca – 4 citações
Frio – 4 citações
Formigamento – 3 citações
Vontade de escrever – 3 citações
Corpo crescer – 3 citações
Já na segunda questão buscamos saber o que sentem os médiuns ao estabelecerem contato com Espíritos numa situação de sofrimento.
Vejamos abaixo as palavras mais citadas:
Dores 14 vezes.
Angústia 9 vezes.
Medo 5 vezes
Raiva 7 vezes.
Tristeza 7 vezes
Vontade de chorar 7 vezes.
Frisamos que os médiuns, em sua maioria, citaram sentir mais de uma sensação. Exemplo: dores pelo corpo, frio e raiva. Ou: medo, angústia, raiva e vontade de chorar.
Na terceira questão intentamos saber as sensações dos médiuns quando há contato com um Espírito em uma condição saudável no mundo dos Espíritos.
As palavras mais citadas foram:
Paz -13 citações
Tranquilidade – 6 citações
Leveza – 5 citações
Como na questão anterior, os médiuns não disseram sentir apenas uma sensação, mas, sempre, um “combo” de sensações, tais como: paz, leveza, tranquilidade. Ou: boas sensações, equilíbrio, felicidade.
Dois médiuns informaram que nada sentem, apenas veem a expansão do seu campo visual e, então, a partir disso tomam contato direto com esses Espíritos.
Dividimos em dois grupos as sensações e as chamamos da seguinte forma:
Sensações físicas e sensações morais.
Nossa intenção é identificar qual dessas sensações causam mais impacto para o médium. Colocamos, naturalmente, como sensações físicas a fome, sede, dores de forma geral, etc.
As sensações de ordem moral colocamos: raiva, mágoa, ciúme, angústia, inveja, etc.
Na questão de número 4 abordamos as sensações físicas. Será que os médiuns sentem as sensações físicas que os Espíritos dizem sentir?
66,2% disseram sentir as sensações de fome, sede, dor e frio.
33,8% disseram não sentir essas sensações no intercâmbio mediúnico.
Já na questão 5 fomos para as sensações morais, que, conforme colocamos acima são: raiva, mágoa, inveja, ciúme, tristeza, etc.
Com as sensações que convencionamos chamar de morais temos os seguintes resultados:
81,5% dos médiuns disseram sentir.
18,5% dos médiuns informaram nada sentir.

Na questão 6 buscamos comparar o vigor das sensações físicas e morais. No caso de o médium senti-las, qual delas seria a mais forte.
Obtivemos os seguintes números:
78,5% informaram ser as sensações morais mais fortes.
21,5% cravaram que as sensações físicas são as mais potentes.
Deixamos, ainda, a questão de número 7 para a livre manifestação dos médiuns.
Traremos, aqui, alguns relatos de forma bem resumida e que poderão ensejar estudos mais profundos.
Diz um médium que, na reunião mediúnica foi orientado a reprimir o comportamento agressivo de um Espírito. Porém, ao reprimir o comportamento agressivo do Espírito, o médium caiu num transe inconsciente em três oportunidades e, segundo ele, à revelia de sua vontade o Espírito manifestou-se. Após os três eventos relatou o médium que teve a sua mediunidade suspensa, sendo que nenhum Espírito, tampouco o agressivo, comunicou-se mais por seu intermédio ao longo de alguns meses.
Comentamos que: No processo de intercâmbio mediúnico, Kardec coloca o protagonismo sempre no Espírito, deixando o médium como coadjuvante, até porque, caso o Espírito não queira manifestar-se nada ocorrerá, por mais potente seja a faculdade mediúnica. Talvez seja este o caso acima, os Espíritos mostrando que poderão promover ou não as comunicações com os médiuns que melhor lhes ofereçam condições para isto e, ainda, no momento que julgarem mais oportuno.
Outros relatos que nos chamaram atenção dizem respeito ao médium sentir uma expansão de seu corpo físico: como se mãos, pés e cabeça fossem assumindo, no intercâmbio mediúnico, um tamanho bem maior do que o normal.
O contrário também foi relatado, ou seja, mãos, pés e todo o corpo do médium vão diminuindo a ponto das coisas que estão ao redor parecerem gigantescas.
Uma hipótese que podemos levantar para esta questão é a propriedade de expansão do perispírito, cujo médium, naturalmente, passa a sentir no contato com os Espíritos, tendo a sensação de que seus órgãos físicos aumentam ou diminuem de tamanho.
Algumas deduções a partir das respostas dadas pelos médiuns:
1 – Os Espíritos transmitem as suas sensações para os médiuns e alguns as sentem conforme o grau mais ou menos avançado de sua percepção mediúnica. Isto pode, talvez, explicar a razão pela qual alguns médiuns não sentem esses efeitos físicos ou morais sentidos pelos Espíritos, e, ainda, o fato dessas sensações serem mais ou menos potentes para uns médiuns do que para outros.
2 – As sensações morais, tais como: raiva, mágoa, ciúme e tristeza são mais fortes na maioria dos médiuns do que as sensações físicas, representadas pela fome, sede, frio e medo. As sensações morais são, para os Espíritos, fonte de sofrimento e felicidade mais potentes, natural, portanto, que guardem essa coerência ao serem transmitidas ao médium, e este, por sua vez, percebe-as de maneira mais clara e intensa do que as sensações físicas.
3 – Notamos, também, um número maior de sensações anotadas no intercâmbio com Espíritos sofredores em se comparando aos Espíritos mais saudáveis. Estes últimos trazem, basicamente, sensações bem parecidas aos médiuns e que podem ser resumidas numa única palavra: paz.
Em suma, eis, no presente texto, algumas impressões sobre o questionário que aplicamos aos médiuns. Outras anotações e percepções deste trabalho poderão surgir, até porque se trata de tema fecundo e ainda pouco explorado.
Pode ser, portanto, que este artigo ganhe mais corpo, mais observações, sendo, então, enriquecido, ou, quem sabe ganhe parte 2 e 3.

Wellington Balbo

Wellington Balbo
Wellington Balbo

Professor universitário, Bacharel em Administração de Empresas e licenciado em Matemática, Escritor e Palestrante Espírita com seis livros publicados: Lições da História Humana; Reflexões sobre o mundo contemporâneo; Espiritismo atual e educador; Memórias do Holocausto (participação especial); Arena de Conflitos (em parceria com Orson Peter Carrara); Quem semeia ventos... (em parceria com Arlindo Rodrigues).

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