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A horizontalidade e a verticalidade da fé

setembro 13, 2021

No capítulo XIX de O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec trata da fé cega contraposta à ideia de fé raciocinada, trazendo esse conceito novo e basilar para a doutrina espírita, ainda que tão incompreendido. Apesar das dificuldades do trato dessa ideia, ela é essencial para se navegar na sociedade do conhecimento em que vivemos.

Comecemos pela fé cega. Segundo Kardec: “A fé cega, nada examinando, aceita sem controle o falso e o verdadeiro, e se choca a cada passo com a evidência da razão. Levada ao extremo, ela produz o fanatismo. Quando a fé se firma no erro, ela desmorona cedo ou tarde. A que tem por base a verdade é a única com futuro assegurado, porque nada deve temer do progresso do conhecimento, já que o que é verdadeiro na obscuridade também o é à plena luz”.

O codificador, na aurora de uma sociedade tecnológica que já despontava, traz a necessidade de uma fé que pudesse conviver com aquele mundo novo, sem perder os benefícios desta para a nossa vida, em especial em uma dimensão espiritual. Há uma percepção nítida nos escritos de Kardec, diante dos conhecimentos trazidos pelos Espíritos, de que ter fé é uma necessidade humana importantíssima.

Pode parecer uma contradição essa ideia de fé raciocinada trazida nesta obra, pois a fé é o absoluto, o transcendente, que existe exatamente para suprir o inexplicável. Mas, Kardec, de forma engenhosa, propõe que a razão tempere essa necessidade humana, para prevenir os prejuízos do seu excesso, quando então ela se faz cega.

A fé cega é vertical, de cima para baixo; se pauta em argumentos de autoridade. Não aceita críticas, dúvidas, questionamentos. Trata de livros sagrados, de palestras unidirecionais, focada no conteúdo e na hierarquia. Busca a letra que mata. Contempla gurus e detentores da interpretação oficial.

A fé raciocinada, a seu turno, tem um caráter horizontal. Convive com o debate; se pauta na construção do conhecimento e tem espaço para a pesquisa. Vive bem em grupos de estudos, buscando os conceitos e a sua aplicação às diversas situações da vida. Sabe se adaptar quando surge o novo, o que a torna forte ao longo do tempo. Faz sentido em uma rede de pessoas, de forma plural.

O conceito de fé raciocinada é moderno e libertador, resgatando uma espiritualidade que conviva com uma sociedade que preze o conhecimento e a pluralidade, mas que ao mesmo tempo exige dos fiéis uma maturidade de sair da verticalidade do poder concentrado para a horizontalidade da rede.

O Século XXI demanda uma fé raciocinada, mas a fé cega campeia, ocupando espaços nas práticas e discussões, inclusive no Espiritismo, com reflexos de fanatismo e fundamentalismo. Talvez a lição mais complexa do Espiritismo seja essa mediação do absoluto do crer, que trata do sentimento, com o racional dos fatos e evidências, em uma fusão que pode parecer de líquidos imiscíveis, mas que é possível se obter construções interessantes, como nos mostra a prática espírita.

Remetendo ainda a Kardec: “A fé raciocinada, que se apoia nos fatos e na lógica, não deixa nenhuma obscuridade: crê-se, porque se tem a certeza, e somente estamos certos se compreendemos. É por isso que ela não se dobra, pois a fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade. É a este resultado que o Espiritismo conduz, triunfando assim sobre a incredulidade, todas as vezes em que não encontra oposição sistemática e interessada”.

Como se vê, o adjetivo raciocinada é uma forma de mediação das mazelas da fé cega. Fica então a questão de que talvez a fé raciocinada seja algo impossível de se alcançar plenamente, mas é importante identificar e limitar a fé cega, faca amolada que corta o espírito de fraternidade e caridade com poder e opressão.

Passados mais de 150 anos, a discussão apresentada por Kardec de uma nova forma de lidar com o transcendente, que fosse ancorada em lógica e em evidências em alguma medida, mediando a verticalidade da autoridade com a horizontalidade da construção, se faz cada vez mais necessária, e nós, espíritas, ainda temos encontrado dificuldade de lidar com esse antigo e moderno conceito. Uma reflexão mais do que urgente.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Nota do editor:
Imagem ilustrativa e em destaque disponível em <https://tvmundomaior.com.br/o-que-e-fe-raciocinada/>. Acesso em: 13SET2021.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga
Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Residindo atualmente na cidade do Rio de Janeiro, espírita desde 1990, atua no movimento espírita na evangelização infantil, sendo também expositor. É colaborador assíduo do jornal Correio Espírita (RJ) e da revista eletrônica O Consolador (Paraná). É autor do livro Alegria de Servir (2001), publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB) e do Livro "Você sabe quem viu Jesus nascer" (2013), editado pela Editora Virtual O Consolador.

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