
Abandono e Aconchego
Ainda sinto no braço a triste sensação do vazio, da procura inútil!
“Não vos deixarei órfãos…”
– Jesus. (Jo., 14:8.)
Quando líamos as obras que relatam a preciosa vida de Chico Xavier, um dos (muitos) episódios que nos sensibilizou sobremaneira foi quando ele começou a perceber, ainda aos cinco anos de idade, a solidão e o abandono a que seria relegado, pela amostra grátis que lhe dava sua indiferente, perigosa, glacial e psicopata madrinha…
Conta ele: “(…) na volta do cemitério, onde acabava de assistir ao enterro de minha mãezinha, vi a diferença entre ela e a senhora com quem eu devia viver. Quando eu andava ao lado de minha mãe, ela encurtava o passo, para acompanhar os meus, e me dava a mão. Tive que apressar as minhas pernas de cinco anos, para estar ao lado da outra, e fiquei feito bobo, balançando a mão, à procura dos dedos da “madrinha”. Ainda hoje sinto, no braço, a triste sensação do vazio, da procura inútil”.
No dia 22 de maio de 1969, aos 59 anos de idade, o notável médium mineiro escreveu uma emocionante carta para seus diletos amigos: o casal Nena e Galves, na qual assim se expressou (1): “a princípio, a solidão se me afigurou uma condição difícil de ser transposta, mas com a passagem dos dias como que a misericórdia de Jesus se compadeceu de mim e mandou que os horizontes do meu coração se ampliassem… Comecei a perceber que a solidão não existia. A noite, que era para mim o tempo mais difícil de ser atravessado, povoou-se de vozes, de um momento para outro… Já não eram somente as palavras dos amigos espirituais que me induziam à fortaleza e ao reconforto… Deles começou a chegar para mim um novo hálito de energia e reconheci que a solidão fora um túnel para que eu lhes encontrasse mais vivamente a influência e o sorriso… Então venho compreendendo que realmente essas crianças sequiosas de afeto que nos procuram são igualmente nossos filhos da alma e que esses companheiros da humanidade que nos buscam, em nossas tarefas espirituais, tantas vezes algemados a cruzes de necessidade e de pranto, são também nossos familiares queridos… Agora, quando estou presente em nossa sopa fraterna, um laço mais profundo me reúne a cada criança que abraço… A vida vai adquirindo para mim um novo e mais belo sentido… Uma força que eu não sei explicar vai me renovando por dentro e observo que a presença do Senhor nunca nos deixa a sós.
Isso tudo que venho sentindo principiou numa noite dessas, quando me vi fora do corpo… Comecei a andar pelo quintal em espírito e, não sei por que meios, as vozes vinham da natureza e, sem palavras articuladas, as cousas, aparentemente desprovidas de inteligência, me falavam à alma… O chão que eu pisava parecia dizer-me que ele também tinha vida e amava o Criador que o fizera e que, conquanto as criaturas o calcassem aos pés, ele se sentia feliz por servi-las, dando-lhes esperança… Mal não terminara e as roseiras nossas conhecidas como que me anotavam os problemas e me faziam sentir que elas também amavam as rosas que Deus lhe colocara nos braços vivos e ansiosos, e que sentiam imensa falta das flores que a Sabedoria Divina Ihes criara na seiva, mas que se sentiam consoladas por saberem que os rebentos de uma vida eram apanhados e levados para longe pelas mãos dos homens para derramarem perfume e alegria em louvor das criaturas de Deus… Depois como que as pedras na base do lar me induziam a compreender que elas igualmente amam o Criador que as materializou em auxílio do homem e as congregou em admirável união, em serviço nas fundações terrestres, dando-me a perceber que, embora, muitas vezes, ignoradas, sentem a felicidade de ajudar na sustentação das edificações humanas… Em seguida, à noite – a própria noite- tinha também uma confortadora mensagem e como que me falava, sem verbo audível, para que eu a recebesse sem medo, porque ela me oferecia um regaço materno à meditação e me ensinava a descobrir que a sombra era tão-somente um caminho para que vejamos no espaço infinito as legiões de estrelas, à maneira de falanges do amor celestial que Deus concede à Terra para que a Terra não se sinta sozinha na imensidão … Minha emotividade se fez tão forte que os laços da vida física me reclamaram ao corpo e, em meio de lágrimas de reconhecimento, compreendi que a solidão desaparecera… Então, em prece, consegui pensar: Oh! Meu Deus, meu Deus! Sê louvado, Pai de amor, pelo amor infinito com que Te fazes presente em toda parte!”
Rogério Coelho
Referência:
(1) HARLEY, Jhon, O Voo da garça. Belo Horizonte. Ed. Vinha de Luz: 2010, p. 278-281.
Nota do editor:
Imagem ilustrativa e em destaque cedida gentilmente pelo autor.
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